O Dia que me dei conta de que estava preparada para ser uma Veterinária Nômade…

Sempre fui espírito livre. A vida profissional da minha família me proporcionou essa visão livre do não-apego. Quando criança até os dias de hoje, mudei para todas as regiões do Brasil. Perdi as contas de quantas escolas, bairros e casas eu vivi. Amigos? Fui cativando e sendo cativada por cada lugarejo que passei, e os elos sempre foram invisível… alguns deles, diga-se de passagem, inquebrantáveis.

Bom, isso tudo é ruim? Para mim não foi. Essa peregrinação me permitiu ter uma ampla visão de culturas e modos de vida. Me permitiu aos 18 anos já não morar mais com minha família. Me permitiu sentir climas e ecossistemas diferentes. Me permitiu clinicar como médica veterinária de diferentes formas.

Esse desprendimento me proporcionou a coragem para me enveredar na maior floresta tropical do planeta por quase uma década. E já um pouco cansada da rusticidade da vida, um dia acordei, abri uma bela garrafa de vinho. Peguei o mapa do Brasil, coloquei um jazz ao fundo, dei um gole no vinho sagrado com os olhos fechados e passei meus dedos pelo mapa suavemente. Deixei ainda por segundos o vinho sobre minha língua para que aquele momento fosse único e eu estivesse perceptivelmente presente.

Abri os olhos bem relaxada e rascunhei o mapa com meus olhos buscando decidir aonde fincaria minhas raízes e dali só sairia a força. Depois de sobrar poucos lugares dos quais eu ainda não tinha passado, meus olhos saltaram para um pitoresco estado brasileiro chamado Paraíba. Quis dar um sentido estratégico/geográfico para minha escolha, como estradas, universidades e aeroportos próximos, mas no fundo no fundo, esses pontos não foram o motivo da minha escolha.

O motivo principal da minha escolha, foi simplesmente morar numa cidade de pescador, com um “lifestyle surf natureba”, ter poucas horas de trabalho e uma dedicação ao meu ser, ou seja, ter tempo para começar a fazer o caminho (TAO) de volta ao meu interior.

Pensei que iria nesta vila me enraizar. Comprei uma linda casa num local semi-deserto, decorei com meu estilo pé no chão e por ai vai. Cultivei um lindo jardim com o foco: “daqui não saio, daqui ninguém me tira”.

Passado 3 anos já veio aquela angustia. Aff (risos), o que será que está acontecendo? Tenho tudo que quero, num lugar paradisíaco aonde as pessoas tiram férias, trabalho com o que gosto, tenho um companheiro de jornada parceiro e amigo. Mas o vazio interno começou a gritar.

Iniciei meu caminho de interiorização do meu Ser, que respingou de forma meio louca e dolorosa a todos que estavam muito próximos de mim. Não é fácil passar pela noite escura da alma com pessoas que amamos por perto. Mas, sabia que era um caminho sem volta. Meu paraíso começou a desmoronar e minhas raízes começaram a ficar sufocadas na bela casa, no belo jardim, na bela vida ao lado de um companheiro, na minha vida profissional. Não conseguia compreender como com tudo perfeito e eu ainda querendo voar.

Não sabia como mudar a minha vida perfeita. Mas, hoje já mais amadurecida mediúnica e espiritualmente, entendi que quando não tomamos a decisão na hora certa, o universo dá seu jeito.

E foi quando eu e meu companheiro sofremos um sequestro com 5 homens fortemente armados, que nos arrancaram bruscamente de nossa realidade, de nossas vidas e de nossos corações. A perda de tudo e a separação física inevitável (por sobrevivência e cura do trauma que ficou), me colocou numa caverna escura, aparentemente sem saída. Cheia de dores e questionamentos. Mas um dia, depois de longo período de lagrimas e dor, percebi um foco de luz no meio do caos.

Me tratei junto a minha família, numa cidade grande (totalmente diferente do meu “lifestyle” pé na areia, e realmente fui me dando conta de uma bela frase do físico Marcelo Gleiser: “Por trás de todo o caos, há uma ordem impecável!

E, foi neste exato momento, que percebi que todo o caos que se passará em minha vida, foi para me trazer para mais perto do meu verdadeiro estilo de vida livre. Para mais perto de ser o que sempre fui: uma veterinária nômade digital, que ama peregrinar, escrever e ajudar as pessoas por lugares diferentes e por tempos incertos.

Quando perdi tudo que é material, o que foi o meu caso com o sequestro, percebi que podemos ter uma vida minimalista, feliz e bem mais leve. Carregando menos coisas e pagando menos impostos de uma sociedade aonde o “ter” é o verbo de status quo do Ser. Hoje, sei que não posso parar por muito tempo em algum local, meu espirito sempre me exige movimentação fora da zona de conforto. É nesta “zona desconfortável” que ele aprende e cresce.

Claro, que um ninho e um tempo de segurança é importante, mas eu mesmo num “ninho” aconchegante, sei que segurança é ilusão…neste aparente porto seguro, podemos apenas dar uma respirada, tirar os sapatos, tomar um banho quente, e recostar um pouco, com o mesmo prato de comida, a mesma rua, o mesmo vizinho, a mesma roupa passada no canto esquerdo do armário. Mas, por quanto tempo somos capazes de suportar essa segurança? Por quanto tempo nosso espirito tenta nos guiar a uma direção, e nós brigamos com ele e seguimos por outro, ou melhor, não o seguimos? Por quanto tempo somos capazes de fazer os mesmos programas de final de semana, porque não conseguimos mudar o restaurante, o parque, a feira, o mercado, a forma de trabalhar, os horários do jogo?

Quando foi que você decidiu mudar tudo? Ou pelo menos uma das suas “seguranças”. Isso é um convite a reflexão. É também um incentivo a ver fora da prisão invisível que nós mesmos construímos.

Neste lifestyle nômade, aprendi a não deixar mais o externo, as rotinas e as crenças do mundo material exercerem força sobre meu Ser….

Aprendi a compartilhar a vida e não as coisas…aprendi a ter coragem de mudar, porque é no desconforto que nosso espirito é treinado e expandido. É fora da nossa zona de conforto, que crescemos…Hoje minha casa é o planeta, e meu jardim as todas florestas..

Abraços
Carla Soares