APLICAÇÃO DA VISÃO SISTÊMICA E INTEGRATIVA NO PROCESSO DE ORTOTANÁSIA

*Texto autorizado pela autora em 13 de junho de 2020. Original publicado no Tratado de Medicina Veterinária Sistêmica 

Por: Fabiana Nunes Zambrini.

Juiz de Fora, Minas Gerais.

fabiana_zambrini@hotmail.com

Aluna da 1a- Turma de Formação em Medicina Veterinária Sistêmica – São Paulo / SP

 

RESUMO

A apresentação desse estudo de caso teve como objetivo principal elucidar a importância da visão sistêmica e integrativa em processos que antecedem a morte de um animal de estimação, não pensando apenas, no paciente veterinário, mas também no seu tutor.

 

ABSTRACT

The presentation of this case study had as main objective to elucidate the importance of the systemic and integrative view in processes that precede the death of a pet, not only thinking about the veterinary patient, but also about his guardian.

 

INTRODUÇÃO

Como um primeiro passo para compreendermos esse relato de caso, faz-se necessário “olhar com olhos de ver“. Olhar com olhos de ver essa ligação, essa relação, que existe entre o ser não-humano e seu tutor. “Olhar com olhos de ver”, é adentrar no campo da alma e do inconsciente de um determinado sistema, com tudo que ele apresenta.

Por quê escolhemos aquele determinado animal para entrar em nossas vidas?

Por quê muitas vezes, nos deparamos com um animal que apresenta características semelhantes ao seu tutor, tanto na aparência quanto no temperamento?

O que esses seres não-humanos querem nos mostrar? Qual o papel deles em nossas vidas?

 

Essas são questões profundamente trabalhadas por um médico veterinário sistêmico.

Esse relato de caso se apresentou para que eu pudesse ter a honra de olhar para mim, e para o outro, e pudesse auxiliar a família a “ver” o pano de fundo dos sintomas trazidos pelo animal.

Apesar do constelador ou médico veterinário sistêmico adotar uma postura de estar em seu centro vazio, é, possível, sim, que por ressonância, alguma informação possa despertar no profissional algum desafio.

Importante trazer alguns conceitos anteriores ao relato propriamente dito, de modo a facilitar a compreensão. A conduta aqui adotada, partiu de um ponto de vista sistêmico e integrativo, na qual, por meio da observação de todo o sistema, e não apenas do indivíduo, paciente e sintomas foram vistos como um todo.

Na Medicina Veterinária Sistêmica não observamos nada de modo isolado e desconectado, pois tudo faz parte e se relaciona. Aqui não tem receita de bolo, não é nada cartesiano, permitimos que as informações se mostrem de forma fenomenológica e observamos através das nossas percepções e emoções.

 

Para integrar a conduta, foi utilizado o Reiki, que é uma técnica de canalização da “energia vital universal” (VANDERVA ART et al., 2009) , por meio de símbolos, e caracteriza-se como uma terapia de cura, realizada pela imposição das mãos, com o objetivo de reestabelecer o equilíbrio energético (VANDERVA ART et al., 2011).

 

O Reiki atua diretamente em alguns pontos de energia que todos os seres vivos possuem ao longo do corpo, que são os chakras, e, fornece  ao  indivíduo  uma  quantidade  adequada  de  energia  necessária para o equilíbrio da mente, do corpo e das emoções (Salomé, 2009), promovendo a cura do físico e mental.

 

RELATO DE CASO

O caso refere-se ao atendimento realizado à cadela “Nina”, SRD, 11 anos aproximadamente. Estive em um primeiro momento somente com a tutora. Em conversa, a tutora relatou que havia retirado Nina das ruas há 10 anos, estando na época em fase adiantada de prenhes, e, que, a 1 ano havia sido diagnosticada com doença renal. A tutora informou, que, constantemente, enfrentava graves crises de difícil resolução. Relatou ainda que pensou em realizar a eutanásia da mesma, pois estava passando por momentos difíceis, sem se alimentar e fazendo bastante vomito.

 

No dia seguinte a tutora retornou, desta vez com a Nina. Eu sabia, que do ponto de vista clínico e ao que estava ao meu alcance no momento, não poderia fazer nada, mas que, por meio da visão da medicina veterinária sistêmica eu poderia atuar com outra abordagem. Dei início à sessão de Reiki, e, muito calmamente, Nina se deitou próxima a mim, permitindo que o fluxo de energia agisse de forma sábia reequilibrando todos os seus chakras.

 

Ao final da sessão de Reiki, Nina se levantou e foi deitar mais afastada, foi aí que através da Comunicação Intuitiva entre Espécies, percebi que Nina me trouxe uma informação:

“comigo está tudo bem, agora olhe por ela, minha tutora”.

 

Dei então início a 2a- etapa do atendimento, já em rapport * com a tutora. Tivemos uma longa conversa, na qual fui direcionando várias frases sistêmicas e resgatando de sua memória lembranças de fatos e sentimentos que fizeram parte de sua vida antes mesmo da chegada da Nina.

 

Instrui a proprietária para que depois, com calma, a mesma se conectasse com  Nina por meio do olhar direto nos olhos, e deixasse que as emoções pudessem ser percebidas através do corpo.

 

Pedi a ela que pensasse em tudo que vivera ao lado da Nina, em tudo que aprendera com ela, e que, conforme essas emoções fossem vindo, que ela fosse realmente exteriorizando isso, falando tudo que lhe vinha no coração e de suas próprias percepções.

 

E assim, com essas orientações encerrei a sessão de exercícios sistêmicos.

 

Para nossa surpresa, a cadela se abaixou e urinou momentos antes de sair realmente da sala, e nos apresentou algo muito valioso, o mais puro amor quando observamos que a urina, ao tocar o chão, formou um coração (foto 1). Através desta imagem na urina da Nina, a tutora compreendeu a informação e sua conexão com Nina. Muito emocionada a tutora seguiu com a Nina para mais uma sessão de fluidoterapia.

 

Poucas horas depois recebi um telefonema da tutora, que relatou-me, muito emocionada, que havia mantido conexão com a cadela durante toda a fluidoterapia, e que percebeu um apaziguamento no olhar da Nina.

 

Durante os movimentos de alma (exercícios sistêmicos) que conduzi e posteriormente na fluidoterapia, a tutora pode expressar a gratidão pela conexão da Nina em sua vida e de tudo que viveram juntas. Houve também, entendimento na tríade tutor x animal x médico veterinário.

 

“A morte será o maior acontecimento individual”.

Clarisse Lispector

 

Nina partiu de forma natural e orgânica (sem sofrimento apesar da gravidade do caso), evidenciando, que o ato médico da eutanásia, não traria esse entendimento para a tutora, de que a morte faz parte da vida, e pode ser vista e vivida de forma pacificada e natural.

 

Devido a fragilidade emocional da tutora, observa-se que a decisão pela eutanásia traria ainda mais a “sensação de culpa”.

 

Observa-se que, posturas sistêmicas associado às práticas integrativas, trazem apaziguamento às famílias, tutores, e, também ao Médico Veterinário, de modo que, estes possam seguir em paz, com a nítida sensação de dever grandiosamente cumprido.

*O relato da tutora foi preservado, não sendo autorizado para publicação.

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Vanderva, A. S., et al. A systematic review of the therapeutic effects of reiki. Journal of Alternative and Complementary Medicine, Toronto, v. 15, n. 11, p. 1157-1169, 2009.

Vanderva, A. S., et al. The effect of distant reiki on pain in women after elective Caesarean section: a double-blinded randomized controlled trial. BMJ Open, Toronto, v. 1, n. 1, p. 1-9, 2011.

Honervogt T. Reiki Cura  e  Harmonia  Através  das  Mãos.  São  Paulo: Pensamento; 2005.

Salomé G M.  Sentimentos  vivenciados  pelos  profissionais  de  enfermagem  que atuam  em  Unidade  Terapia  Intensiva  após  aplicação  do Reiki.  Revista Brasileira de Enfermagem, 2009; v. 62(6): 856-62.