UM POUCO SOBRE O NOSSO LUGAR ATRAVÉS DA MEDICINA VETERINÁRIA SISTÊMICA

A visão sistêmica é uma abordagem psicoterapêutica, uma filosofia, um caminho e uma ciência fenomenológica, que traz pacificação para a alma, reorganização dos representantes de um sistema, e uma condição psíquica de harmonia e força, que felizmente, é reconhecida pela Lei 19.785 de 20 de dezembro de 2018 do Ministério da Saúde.

  Meus professores, que tanto respeito, José Roberto Marques (Brasil) e Cornélia Bonnekamp (Alemanha) sempre reforçavam que:

As Constelações são uma abordagem para uma reorganização psiquicogeográfica, ou seja, quando estamos “fora” do nosso lugar, nos sentimos pesados, em sofrimento, deslocados, fracos, e pior, sem um sentido para aquela “função/posição”.

   Este estado de reposicionamento, só é possível tendo contato com a dor, com as mortes, com as exclusões e respeitando acima de tudo a ORDEM E A HIERARQUIA de um sistema. Os que não conseguem entender isso, está tudo certo.

Consteladores que buscam a sabedoria,  respeitam as pessoas que acham que isso não é importante, que isso é opinião e não lei, que isso pode ser quebrado, e, ainda assim, a pessoa seguir pela vida com força e clareza. Sim, ela segue, mas fraca e pesarosa. Segue deslocada, no ego (sobretudo espiritual) e em conflito com o mundo. Segue sem conseguir se posicionar.

Quando estamos em nosso lugar, não sentimos necessidade de falar da vida alheia e subjugar o outro, porque o mais importante é estar firme em seu lugar. Para estarmos em nosso lugar, há demanda de longo e profundo trabalho interno, então, o outro passa a ser instrumento de cura, e não mais um alvo inútil de falatórios. Pessoas que também estão fora do seu lugar, gastam seu precioso tempo laboral de solitude e aperfeiçoamento, na passividade da escuta inútil de pessoas que querem desestabilizar um sistema. Então, tanto o que fala quanto o que escuta estão deslocados de sua força interior e de seu lugar no mundo.

A sensação de estarmos em nosso lugar é profundamente harmônica, leve, amorosa e forte. Passamos a nos acolher, a respeitar nossas dores, a observar. Quem está no lugar certo, tem força para respirar e observar em silêncio. E é essa a grande postura dos BONS CONSTELADORES. Observar os movimentos em silêncio, e sustentar a culpa da má consciência de que em muitos momentos não há nada fazer, exceto, respeitar o destino do outro.

 Para encontrarmos o nosso lugar em cada um dos sistemas que frequentamos, precisamos aprender a respeitar o que já precede em cada lugar. Precisamos compreender com humildade que em cada sistema, existe uma ordem e uma hierarquia, existem pessoas que estão por sabedoria já no lugar certo. Bert Hellinger diz que a ORDEM/HIERARQUIA precede o AMOR, porque uma sem a outra, faz com que o amor seja veículo de dor e sofrimento, de exclusão, de manipulação e fanatismo.

Quando estamos em nosso lugar é inadmissível usar frases sistêmicas para agredir e ferir o outro. Isso é conduta não ética de consteladores que estão fora do lugar. Portanto, ser constelador, não é em hipótese alguma, decorar frases sistêmicas para ferir o outro ou criar diálogos conflituosos com a barbárie das frases.

Quando estamos em nosso lugar, confiamos plenamente na mente intuitiva, na percepção corporal, e, as mentiras e más-intenções são facilmente detectadas. A alma é tão sábia que avisa antes qual a intenção das pessoas. É, vergonhoso ver profissionais, sobretudo, em formação, achar que podem sobrepujar a alma de quem precede a eles e que já está mergulhado no trabalho laboral interno profundo de anos e anos.

Desta forma, quando estamos no nosso lugar, sobretudo, como consteladores, o silêncio, a solitude, o amor adulto e os limites impostos, são as bases para que prossigam no trabalho interno, e ainda, dêem conta do campo dos sistemas no qual estaremos em interface.

Estar em nosso lugar, sobretudo, como constelador, é algo muito profundo e de uma sabedoria maravilhosa, porque a força deste lugar vem quando já nos posicionamos corretamente e, primeiramente, no nosso sistema familiar de origem e em todos os demais sistemas (universidade, clube, sociedade, bairro, etc).

Estar em nosso lugar, não é estar espiritualmente evoluído, e tão pouco se sentindo acima de outras pessoas. Muito pelo contrário, estar em nosso lugar é algo profundamente material e humano. Portanto, ordem e hierarquia não tem haver com se sentir superior e ter ego espiritual. É, APENAS, assumir o seu lugar e se respeitar e se honrar por isso. Estar em nosso lugar é de uma humildade e grandeza inexorável.

É assustador estar em nosso lugar. Porque é nele que ganhamos força e poder de realização humanitária e humana. É nele que conseguimos ajudar as pessoas e os animais EM GRANDES ESCALAS e com mais alegria e leveza. Assumir o nosso lugar exige sustentação, calma, consciência, e cuidado com nossa criança ferida, que sempre vai nos fazer lembrar de sair e chorar com medo, sempre vai nos autosabotar nos trazendo para as realidades que já não fazem mais sentido para nós e nos fazem voltar para a nossa zona de conforto de sermos leais ao sistema de origem.

Medo e culpa são duas emoções que deverão ser trabalhadas quando buscamos o nosso lugar no mundo, e depois de encontrarmos, devemos ter força para sustentar a felicidade, o peso e a dor de estar nele. Mas, aos que buscam o seu lugar, lhes digo:

“Essa é sua missão no mundo. Buscar seu lugar de força, amor e capacidade de assistência humanitária, e, assim como nas constelações, não há estrelas fora do seu lugar…essa é a busca da grande alma. Sua alma não te deixará em paz, enquanto não se colocar a caminho deste encontro: você e seu lugar”.

 

Aos aprendizes da Visão Sistêmica, sobretudo, meus alunos, lembro-vos que as posturas abaixo são fortes indícios de que você ainda não se reposicionou em seu sistema:

– Desrespeitar e desvalidar os movimentos da alma, seguindo o ego e seus medos;

– Desrespeitar os desconfortos de estar em situações, lugares, com pessoas e realidades que não te cabem mais;

– Buscar conflitos e desarmonias entre pessoas de um grupo, quer seja ativamente (falando mal das pessoas, sobretudo, os que precedem) ou passivamente (ouvindo o falar mal das pessoas);

– Desrepeitar a Ordem e a Hierarquia de um sistema e uma egrégora;

– Carregar um peso na alma maior do que deveria, por estar em lealdade, honrando as impossibilidades de seus ancestrais;

– Desrepeitar seu espaço sagrado e não impor limites e regras;

– Desrepeitar sua intuição e não agir com sabedoria e amor;

– Se colocar como vítima nas adversidades, ao invés de assumir sua culpa (má consciência) e responsabilidade;

– Achar que incluir ou tomar uma pessoa no coração é ter que conviver com ela, e com isso, desrespeitar a si próprio e se ferir;

– Desvalidar os avisos e chamados da alma, das sensações do corpo e das informações invisíveis a olho nu;

– Causar intriga e conflitos em um sistema. Buscar criar realidades causam desarmonia;

– Fazer muito esforço para conseguir algo;

– Não saber tomar e receber algo (elogio, dinheiro, reconhecimento, amor, amizades, etc). Quem está no lugar, tem força para sustentar a culpa de receber e ficar em dívida com o outro e ficar em paz com isso.

– Julgar e ser desleal com má intenção, confundindo, má intenção com má consciência;

– Falar mais do que ouvir, sobretudo, com a intenção da desordem e da manipulação;

– Querer ser maior, mais sábio, mais importante que o absoluto e que o campo;

– Quando ele não sabe renunciar para estabelecer paz;

– É desrespeitar a força do mistério, do oculto, da alma e da sabedoria maior;

– É desrespeitar os limites e regras impostos pelo outro;

– É não ter humildade de se sustentar em seu lugar;

– É não perceber o essencial e ser leviano nas palavras desnecessárias;

Um dos processos mais bonitos de nos sustentarmos e termos forças como adultos em nosso lugar, é reconhecer e saber lidar com nossas limitações, nossas falhas, nossas personalidades obscuras, e sobretudo, sabendo impor limites, para não se emaranhar com os problemas das outras pessoas, que quando rompem limites, ordem e hierarquia, jogam para você essa responsabilidade.

Recentemente, e, obviamente, com autorização da minha espiritualidade e da minha própria alma, decidi passar por uma “prova/teste” de sair do meu lugar e expor minha mais alta fragilidade. Pensei como professora de constelação, que seria melhor eu mesma ser a “cobaia” de uma grande constelação, e perceber qual a postura que se manifestaria no campo. E o óbvio aconteceu…amor sem ordem é desordem (Bert Hellinger).

Foi uma das experiências mais lindas que tive nos últimos meses, pois me mantive observando em silêncio todos os movimentos que aconteciam quando você renuncia o seu lugar de alma e missão. O caos se instala…perdas, conflitos, desordem, falatórios, perda do foco, falta de ordem e de hierarquia.

Foi essa linda experiência, que me trouxe ainda mais honra e respeito ao Bert Hellinger, aos meus professores e mestres, e mais força de autoconduta para compreender a magnitude do que de fato é estar no lugar que nos pertence, sobretudo, como Constelador. Respeitar um “pai/mãe” presentes, abundantes e amorosos é fácil. Respeitar e honrar um “pai/mãe” quando esses se ausentam da expectativa do papel deles, é o grande desafio da inclusão no coração. Mas a visão sistêmica é impiedosa, e, enquanto não tomarmos no coração o seu lugar no mundo, a paz interna continuará a léguas de distância.

Os estudos sistêmicos e das constelações tem primordialmente essa missão: colocar-nos na beleza de sermos quem somos, na verdade da intenção da alma, e nos bancar com a beleza do amor e da nossa dor. A melhor forma de saber se você está ocupando o seu lugar, é tendo a coragem para se autoanalisar. Ninguém mais do que você próprio terá essa resposta. Ninguém mais para ver sem máscaras a sua própria verdade.

Assim, finalizo com a belíssima máxima de Bert Hellinger:

“Quando estou no meu lugar, eu me sinto em paz”…

 

Com silêncio e paz;

Carla Soares

Founder e Professora do Programa de Formação em Medicina Veterinária Sistêmica no Brasil e no Exterior

Diretora do Portal Soul Vet