SÍNDROME DE BURNOUT SOB A LUZ DA MEDICINA VETERINÁRIA SISTÊMICA*

*Artigo adaptado e extraído da obra original O Samurai e o Médico Veterinário (2019). Este artigo tem direitos reservados, sendo autorizado pela autora para publicação exclusiva no Boletim Técnico da Associação Brasileira de Veterinários de Animais Selvagens – ABRAVAS e no Portal Soul Vet.

RESUMO

A abordagem sistêmica sobre Síndrome de Burnout foi profundamente apresentada na obra O Samurai e o Médico Veterinário, através de estudos sistêmicos observados ao longo de quase 20 anos, aonde são apresentados os aspectos do inconsciente coletivo da classe médica veterinária que tem corroborado de forma oculta para o adoecimento dos profissionais.

Palavras-Chave: eutanásia, visão sistêmica, mindset, constelações, autoconhecimento

 O estresse é uma síndrome definida tecnicamente por muitos cientistas, mas alguns deles serão destacados aqui. Em 1867, um francês chamado Claude Bernard abordou como fisiologista que era, os mecanismos neuroquímicos do estresse em suas pesquisas. Claude Bernard era da Universidade de Harvard e aprofundou-se no funcionamento da homeostase e da estruturação celular.

Nesta condição iniciática foi possível preparar o terreno para novas pesquisas, percebendo-se que o estresse é condição multifatorial e idiossincrática; estabelece-se quando o organismo perde ou amplifica sua capacidade de respostas a um ou mais fatores exógenos de origem física, química, emocional e/ou espiritual.

Hans Seyle foi um pesquisador canadense que deu sequência às bases doutrinárias da fisiologia, descrevendo o estresse como uma Síndrome de Adaptação Geral, estado de alarme, resistência e exaustão. Deste clássico generalista, derivou-se a Síndrome de Burnout, que é uma condição de estresse; porém, relacionado às questões laborais. Herbert Freundeberg em 1970 foi um psicólogo familiar e psicanalista, e o primeiro pesquisador a citar o termo Burn out (= consumir-se por completo).

Freundeberg traduziu Burnout como uma condição de esgotamento, de “queimar-se = esgotar-se” por completo. Perder as energias e forças perante a uma situação de estresse crônico. O Código Internacional de Doenças (C.I.D) classifica Burnout no Grupo V – CID-10. O International Stress Manegement Association (ISMA) descreve o Brasil como o segundo país com os maiores índices de estresse, e, em especial Burnout que é uma subcategoria, não por ter menos importância, mas por ser especificamente relacionada às questões dos trabalhadores (laborais).

Médicos Veterinários têm sido acometidos pela Síndrome de Burnout por diversas razões. Condições de trabalho, carga de estudos, dificuldades relacionais e interpessoais, falta de foco, baixa capacidade relacional no ambiente laboral, relação com a dor do animal e da família, eutanásia legalizada, dificuldades sociais, questões psíquicas da formação do profissional, culpa, medo de errar, e diversas questões são fatores elencados no desencadeamento desta síndrome.

Porém, antecedendo a todas estas questões na Medicina Veterinária, Burnout é apenas a ponta de um grande iceberg. É a parte adoecida de um “câncer sistêmico” que pode ser mostrado e sentido facilmente em movimentos sistêmicos.  A ausência de nossas bases existenciais, e de alma, é fator que nos conduz a caminhar como todos, e com isso, nos perdemos e nos fragilizamos. Nossa pobreza de autoconhecimento permite que nos coloquemos de forma já fragilizada dentro de um sistema completamente adoecido, que de forma execrível e descriteriosa, só potencializa nossas dores e nossas questões.

O estado crônico de Burnout, somado à ausência e à desconexão de nossa alma/coração, com a dificuldade imperiosa que temos de descer do altar emantado que nos colocamos como profissionais de saúde, dificulta ainda mais nosso reconhecimento e humildade em pedirmos ajuda, o que nos leva à difícil e desesperada tomada de decisão, que é o suicídio. Assim, também, eram os Samurais. Trabalhadores incansáveis dos Imperadores, que lutaram até as últimas guerras físicas, em condições primitivas de embate, e de tão exaustos, e já sem se perceberem com outras qualidades de alma, cometiam, por honra, o suicídio.

Mais uma vez, os sincretismos aparecem, e, com isso, cabe-nos uma profunda reflexão para que possamos mudar este quadro, pois, a cada perda humana, o sistema veterinário todo é afetado, como num Efeito Borboleta – “butterfly effect”, como uma pedra jogada em um lago aparentemente calmo.

Sabe-se que um suicídio afeta sistemicamente a vida de muitas pessoas ao redor, e pelas estatísticas e estudos atuais de psicólogos e terapeutas que estudam o suicídio, pelo menos 50 pessoas ligadas ao suicida são atingidas.

Essa visão sistêmica do adoecimento e morte dos Médicos Veterinários e estudantes precisa ser questão abordada desde a família até as instituições de ensino. Mas sem que nos coloquemos em um local de vítima, é necessário que façamos a nossa percentagem ativa de trabalho interno. Com isso, nosso trabalho interior de pacificarmos nosso orgulho e ego deve ser tão tenramente iniciado, com disciplina, autoamor e atenção.

Mais ainda, deve partir do próprio Ser em querer se conhecer e se fortalecer. Sem essa querência, estaremos maquiando os nossos passos com artificialidades e distrações existenciais. E assim, Burnout e Suícidio estarão em nossas sombras ocultas não desenvolvidas e não acolhidas. Não adianta querermos uma nova realidade para nossa medicina, se não fizermos as mudanças internas necessárias que somada às mudanças internas do outro, sustentem a nova condição.

Paralelo a estas questões contemporâneas, mas não somente ocidentais, é necessário que possamos falar sobre as emoções dos Samurais e o quê os levavam ao estresse. Samurais eram proibidos e treinados para não expressar nenhuma emotividade. Eles tinham esse autocontrole na dor, no medo, na fome, nas alegrias e conquistas coletivas e pessoais. Essa inexpressividade dos Samurais os tornaram seres sofridos internamente. Eles cultivavam habilidades muito difíceis para como se manter num estado de alerta com inimigos reais e imaginários, eles ainda em estado de alerta demonstravam calma, e mais ainda, demonstravam profunda confiança.

Estas características são o que nos doutrinam nas instituições de ensino de medicina humana e medicina veterinária. Demonstrar nossas emoções, medo, fragilidades, é sinal de incompetência técnica. Mas será? Será que se formos mais humanos e gentis, nossos conhecimentos técnico-científicos desaparecem? Isso é um grande sinal de alerta de adoecimento da alma. Inexpressividade é nos autoignorarmos numa parte muito importante do nosso Ser.

Sem expressividade não podemos extravasar amor, raiva, medo, e se nesta ordem a doença surge, então, estão instaladas as doenças de cunho emocional/mental e por fim, as debilidades e inoperâncias físicas.

Os Médicos Veterinários e os Samurai sem expressividades, podem até vencer lutas e batalhas, mas sucumbirão, mais cedo ou mais tarde de suas próprias dores emocionais e de alma. Se não houver um treinamento contínuo de nossos processos internos tão quanto os treinamentos cirúrgicos e de habilidades médicas, estaremos igualmente negligenciando uma parte muito importante de nós e de nosso sistema: nosso interior.

Se colocarmos neste caso Burnout e Suicídio na Medicina Veterinária sob o ponto de vista da Visão Sistêmica, precisamos fazer uma verificação para detectar e/ou fazer-se revelar porque nós, Médicos Veterinário, estamos profunda e inconscientemente identificados com a ausência, ansiedade, depressão, isolamento e alinhamento com a morte.

Eu não teria essa resposta neste momento, pois estamos abordando Burnout sob a luz de uma ciência fenomenológica e epistemológica. Contudo, podemos observar a “repetição” da expressividade dos campos morfogenéticos, e o que estamos detectando através da Visão Sistêmica são as exclusões. Muitos “atores” estão excluídos do sistema veterinário, incluindo a nós próprios, os tutores, e nossos malfeitos e etc.

Podemos ainda verificar o sentimento e sensação do inconsciente coletivo da classe Médica Veterinária com muita culpa. Carregamos muita culpa.

Essa culpa inconsciente, advêm de uma variedade imponderável de situações pertinentes aos Médicos Veterinários, mas sinto que por termos a AUTORIZAÇÃO LEGAL e poder da vida e da morte com relação aos animais, quer seja através da eutanásia e/ou do abate, pesquisas com animais, essa dor dos animais nos impregna de toda forma, nos tornando “culpados”, mesmo perante a Lei dos Homens.

Obviamente temos um conflito interno: nossa mente é autorizada por códigos humanos que nos habilitam e permitem a retirada da vida, muitas vezes até de forma banal em instituições. Numa outra polaridade e nível de entendimento, uma outra parte nossa que é a alma, atua sobre outras forças, nos colocando numa posição dividida da mente racional e nosso coração verdadeiro. Desta forma, há um crônico desgaste entre nossa mente e nossa alma, e mesmo que neguemos tal condição, a dor e a culpa se infiltram de forma oculta em nosso inconsciente, que soterrado pelas tarefas diárias, não nos permite o acesso. A negação, é, portanto, causa primária dos obstáculos de cura sistêmica.

O que cito no parágrafo acima, é difícil de compreender e mais ainda, difícil de compreendermos como atos coletivos (ainda que legais), possam afetar sistemicamente a alma de todos que os pertencem à classe. Mas afeta, e de forma inconsciente, vamos arrastando nossos sofrimentos na profissão, sem conseguirmos perceber a causa base do que nos infringe de forma oculta. Quando estudamos mais amíude a Teoria Geral dos Sistemas, descrita pela primeira vez em 1925 pelo biológo austríaco Ludwig von Bertalanffy, e conseguirmos compreender que partes isoladas funcionam em prol de um todo, a exclusão de quaisquer umas das partes (sejam pessoas, emoções, animais, pensamentos, eutanásias, abates, etc), compromete o funcionamento do todo, buscando se contrapor naturalmente a visão reducionista e mecanicista. Não podemos explicar o complexo de forma simples, e tão pouco explicar sistemicamente situações pertinentes a Medicina Veterinária de forma cartesiana.

Assim, é óbvio que questões sociais, familiares, econômicas e laborais desencadeiam Burnout e Suicídio, mas creio que a compensação que nossa alma clama por milhares de anos de induções a morte, nos faz alinhar de forma inconsciente nesta direção, nos causando por compensação, identificação e honra aos mesmos sofrimentos de dor e morte, que causamos ao outro, um caminhar nesta direção.

O sistema para funcionar em prol do todo, solicita de forma sutil a compensação das “perdas” para se equilibrar, e assim, nos exigirá ao menos ressignificar nossa jornada com relação a nossa percepção aos seres humanos e aos animais.

“Enquanto houverem exclusões e o trabalho laboral da eutanásia e abate for exercido de forma desconectada de nossos corações, o sistema nos cobrará de forma irrefutável o nosso olhar, quer seja reverenciando (honrando) nosso passado, quer seja melhorando o olhar da Medicina Veterinária, quer seja nos fazendo sofrer até que sejamos capazes de ver que a nossa morte é uma compensação ao sistema pelas forças ocultas de exclusão, medo e culpa que nos impele a cada dia de trabalho”- Carla Soares.

 O Médico Veterinário necessita integrar sua mente inconsciente à sua mente consciente de sobrevivência (ego), para deixar de sentir os vazios existenciais, e se integrar a sua alma com a mesma destreza que os Samurai se integram às suas espadas. A conexão, é, portanto, o caminho.


O Inconsciente coletivo da classe Médica Veterinária, suas idealizações e os traços de psicopatia

Quando uma criança adora animais e diz: quero ser “doutor” dos animais, ela crê que a base da Medicina Veterinária é amar os animais, sobretudo, incondicionalmente. Nossos pais creem nisso, nosso inconsciente crê nisso, nosso sistema educacional e de formação acadêmica, também, pois institucionalizam as ideias dos atos heróicos e juramentados que devemos ter em nossa rotina clínica diária.

Em contribuição a este amor equivocado de incondicionalidade, as empresas de medicamentos, vacinas e rações vendem seus produtos baseados em imagens e propagandas subliminares de médicos veterinários felizes abraçando seus pacientes animais. Mas o que nós desconhecemos é que quando um jovem decide que seu ofício é ser “médico dos animais”, ele opta porque não gosta de se relacionar com seres humanos, em uma espécie de “psicopatia” inconsciente e coletiva.

Segundo a revisão de literatura de Davoglio, et al.; 2012, existem psicopatias com nomenclaturas bem codificadas de comportamentos com traços de alterações externalizados, como por exemplo: comportamento infantil, impaciência, fugas, roubos, e outros, e alguns comportamentos internalizados, que é o nosso foco principal aqui, aonde as pessoas podem apresentar quadros de depressão, solidão (isolamento), ansiedade, antisocialização e, por fim, algumas psicopatias crônicas.

A questão do inconsciente coletivo dos Médicos Veterinários, é que além do perfil antissocial, percebem-se os traços depressivos e ansiosos que podem de fato, serem importantes e levarem os estudantes e profissionais, à casos psiquiátricos de grande relevância para a classe. Quando uma pessoa escolhe ser Médico Veterinário, ela inconscientemente, não percebe que já possui traços depressivos e de isolamento social, buscando se refugiar e se aninhar em meio a natureza, aos sítios e aos animais.

Em uma perspectiva sistêmica e em meus estudos, tenho verificado que:

“Movimentos de Amor, interrompidos com pai e mãe na infância, e que se repetem durante a vida em relacionamentos de todas as formas, acabam por ser direcionados aos animais, que como canais, estimulam a nossa prática e expressividade de amor. Quando nas constelações sistêmicas veterinárias, olhamos grandes “obsessões de amor-cego” por parte de tutores e médicos veterinários aos animais, é porque esse Amor não está bem equilibrado, honrando e fluindo para nossos Pais”. Carla Soares

Todas essas questões levantadas neste capítulo, são os pontos nevrálgicos do inconsciente coletivo dos Médicos Veterinários, que em geral, e se não em sua grande maioria, são as somatizações psíquicas de pessoas que passaram por grandes traumas (muitos não têm acesso consciente a estes traumas), como abortos na família, perdas traumáticas, abusos de diversos tipos, punições, e outras formas de agressão que podem ter permeado à ancestralidade e infância/adolescência dos Médicos Veterinários.

Muitos destes traumas, quando não olhados e acolhidos, podem conduzir as pessoas ao uso abusivo de drogas e álcool, bem como levar aos mesmo à quadros de profunda depressão, instabilidade e suicídio (Davoglio, et al.; 2012), quadro este, repetidamente destacado nas estatísticas mundiais.

Essa fragilidade histórica e do inconsciente do psiquismo dos Médicos Veterinários, fazem com que esta escolha laboral esteja plenamente identificada e projetada no “amor incondicional” aos animais, excluindo e fragilizando ainda mais os processos de aprimoramento e desenvolvimento das possibilidades relacionais intraespecíficas, que são exigidas dos Médicos Veterinários, tão quanto as suas destrezas cirúrgicas e terapêuticas. Os traumas da infância, da adolescência e o aspecto transgeracional, provavelmente, permeiam terrenos muito profundos do inconsciente dos Médicos Veterinários, que em algum momento, buscam o refúgio e o aconchego junto ao convívio com os animais, que são seres “curadores” inatos”.

Escolher conviver e/ou trabalhar com animais não é sinal patognomônico de personalidades disfuncionais, depressão e adoecimentos psíquicos, mas quando há um sentimento de desidentificação com a mesma espécie (Homo sapiens), aqui no sistema veterinário, representado pelos próprios colegas, tutores/famílias, então, podemos considerar que essa posição/função dos animais em nossas vidas pode ser analisada como um possível subterfúgio ao duro trabalho de termos que corrigir nossas imperfeições e acolhermos nossas dores de alma.

A dor inconsciente e emocional presente na psicosfera soterrada dos pretendentes a Médicos Veterinários já é pincelada em características como timidez, insegurança, sentimento de rejeição, medo, fragilidades, dificuldades relacionais, sociais e sensação de abandono, empurrando-os de forma magnética a buscar o aconchego e a identificação com seres de outras espécies, como os cães, gatos, equinos. Um traço fortíssimo, já descrito na Síndrome do Burnout, é a despersonalização e desidentificação (falta de empatia TEMPORÁRIA) com seres da própria espécie. Esse traço inconsciente já vem sutilmente instalado na “criança” veterinária. Essa desidentificação temporária por estresse em Burnout, não é igual a desidentificação por Transtorno de Personalidade (Psicopatias ou Transtorno de Personalidade).

 Após tratamento, um paciente com Síndrome de Burnout consegue reestabelecer seu fluxo de amor ao próximo (humano), enquanto que, em Mentes Psicopáticas, esse fluxo de amor não é possível, porque neste transtorno de personalidade há um impeditivo genético do sistema límbico que leva à má conduta, e até o presente momento, não se tem conseguido sucesso em tratamentos, sobretudo, por não ser considerado doença, e sim, uma personalidade.

Como o Dr. Sérgio Lobato, bem colocou em seu prefácio na obra O Samurai e o Médico Veterinário, a frase jargão da Medicina Veterinária é: “Gosto mais de bicho do que de gente”.

Ou seja, já entramos na Medicina Veterinária, buscando, de forma inconsciente, refúgio para as nossas dores e as nossas dificuldades para lidar com nossas imperfeições que são facilmente espelhadas pelos tutores (que são nossos clientes) e pelos colegas (nossos pares), mas que não são primariamente estimuladas no convívio exclusivo com os animais.

O que acontece, quando, nós, Médicos Veterinários, mergulhamos na realidade do exercício profissional é que nossos castelos idealizados de areia são facilmente destruídos, porque, na verdade, nós temos é que lidar com a nossa própria espécie, sendo os animais, apenas a ponte entre você e o outro.  Resolver questões clínicas, cirúrgicas e de adoecimento dos animais não são demasiadamente difíceis, porque os conhecimentos são acumulativos e técnicos, nos exigindo habilidades mentais e manuais.  Porém, quando lidamos em nossos consultórios com as famílias já adoecidas buscando também soluções para as dores da própria alma e não somente para as doenças clínicas de seus animais, é quando nos deparamos com as nossas próprias questões internas, nas quais muitas vezes, não conseguimos olhar e não sabemos lidar, porque não estamos habilitados em nossas questões emocionais e de alma.

Em detrimento de todo o apresentado, a Medicina Veterinária, além de lidar com as questões médicas de vida e morte dos animais, ainda têm o agravante de ter a permissão ética e jurídica de proceder com o ato da Eutanásia.

O Ato Médico Veterinário da Eutanásia, mesmo com indicações para os casos terminais de profunda dor e sofrimento dos animais, causam a médio e longo prazo, sequelas sistêmicas e inconscientes de dor e culpa em nossas consciências/almas, tornando-nos muito vulneráveis às questões da vida e da morte, e mais ainda, banalizando a eutanásia como procedimento último, por sermos novamente inábeis, em lidar com o sofrimento dos animais e de seus tutores (Insight ocorrido durante uma Constelação Familiar em Brasília/2018). Num ato de “desespero”, somos autorizados a retirar a vida de um Ser, porque aprendemos as técnicas médicas que interrompem a vida e aumentam o abismo de ligação, elo e empatia com os tutores, que se apoiam com suas muletas, neste ato findável, como fuga de suportar as suas próprias dores e incapacidade que possuem de ver a morte de forma natural.

Não pormenores, esses traços característicos da profissão Médica Veterinária, são afrontas à alma dos estudantes e profissionais, que dessensibilizados e sem empatia com a vida, são autorizados a verem a morte induzida como uma possibilidade e demanda natural. Se analisarmos sistemicamente quantos milhões e milhões de animais são eutanasiados por médicos veterinários/família/ciência, estamos num efeito cumulativo de “culpa insconsciente”, que vêm afetando a posteriori, as gerações mais novas, que felizmente já tem começado a questionar.

Se, em nossas formações de base não conseguirmos enxergar a morte de uma outra forma, estaremos só alimentando o medo de nos deparar frente a ela, trazida por pacientes-animais conectados às suas famílias desesperadas. Todas essas questões, que são trazidas pelos tutores aos médicos veterinários e vice-versa, agravam ainda mais as questões inconscientes das dores emocionais do profissional e também dos tutores, as quais não são revisitadas e acolhidas com apoio de amigos, família, psicólogos, terapeutas e médicos. Em uma outra polaridade de rotina clínica, jovens veterinários saem das academias de ensino e se deparam com um mercado profundamente díspare e equivocado da realidade Acadêmica, sendo os animais apenas elos entre os médicos veterinários e os tutores, seus verdadeiros clientes.

Estudantes saem das instituições treinados e habilitados para lidar com um órgão/sistema, um sintoma e suas diversas terapêuticas e abordagens, mas não são treinados para lidarem com o sistema familiar no qual este animal esta profundamente identificado por amor e, em geral, ocupando uma posição completamente equivocada na família, ao suprir demandas emocionais de vazios e desequilíbrios familiares.

Sob esse ponto de vista de uma medicina mais moderna e consciente, os animais podem ser considerados fortes bioindicadores de desequilíbrios sistêmicos, quer seja no âmbito do sistema familiar ao qual está inserido, quer seja no âmbito do sistema médico veterinário. A pergunta primária deve ser: o que estes animais/pacientes estão me dizendo/trazendo? Somente uma lesão? Ou um quadro sistêmico familiar? Ou melhor ainda, o que esses animais estão me trazendo para ser olhado em mim?

Aprendermos e estudarmos essas perspectivas que estão em nosso sistema veterinário, é um dos importantes passos para que possamos interromper as sucessivas dores de alma no inconsciente dos Médicos Veterinários, podendo, talvez, diminuirmos, assim, os índices de depressão e suicídio entre estudantes e colegas, uma vez que, para ser um radar clínico sistêmico teremos que inevitavelmente, nos olhar em primeiro lugar.

Assim e somente assim, talvez, possamos decidir “SER” Médicos Veterinários de forma consciente, e desse modo, nossas escolhas estarem pautadas em um amor genuíno pelo próximo, e, também, mas já não mais exclusivamente, pelos animais.

E como lidar com esses padrões de adoecimento quando estes são observados sob o ponto de vista sistêmico?

Existe solução? Sim. Contudo, essa perspectiva parte de um trabalho individual atento e continuado, que somado a outros trabalhos individuais sustentarão às novas perspectivas. A busca pelo autoconhecimento e uma nova programação de mentalidade progressiva (Mindset), fortalece as bases internas para o mínimo de relação harmônica e empática entre o Médico Veterinário e a humanidade. Os animais por identificação representam nossas dores e padrões bons e adoecidos, mas, como dito anteriormente, são potenciais bioindicadores de equilíbrios e desequilíbrios, que devem ser analisados e estudados quando são vistos sob o ponto de vista clínico sistêmico.

Para que o Médico Veterinário compreenda estas questões sistêmicas, e consiga se refugiar em si para iniciar seus processos de ressignificação de seus propósitos e a forma ao qual ele desenvolve seus trabalhos, ele precisa quebrar suas deficiências relacionais e sociais internas, para quê, assim, e somente assim, consiga se inserir de fato num sistema veterinário oxigenado e inovador.

Esse adoecimento do Médico Veterinário é uma epidemia de desidentificação com o sistema pleno e consigo próprio; ele é composto por seres humanos individuais, pares, famílias, empresas, e por fim, pelos animais, que se tornam apenas um dos elos os quais ligam todos os seres humanos, rumo a uma cura e a um entendimento mais profundo e mais completo. Estar inserido no sistema veterinário é pertencer a ele de fato, sem ilusões e crenças. Essa sensação de pertencimento só ocorre se houver conexão/rapport profundo e verdadeiro entre as pessoas.

Assim, os promissores candidatos às vagas de Médicos Veterinários devem, a partir de agora, partir da premissa que se desejam verdadeiramente esse ofício precisarão amar a si mesmo e por consequência natural, ao próximo. Deverão ter postura e treinamento de verdadeiros guerreiros pacificados, praticando os caminhos de ética, do amor e da relação dos grandes Samurai Japoneses.

Ser Médico Veterinário, no Terceiro Milênio é ser médico da vida, amando as pessoas e cuidando dos animais. Sem esse amor aos seres humanos e o cuidado consigo próprio, sucumbir-se-á exausto em meio a campos de batalhas criados pela desconexão do seu coração e do verdadeiro sentimento de compaixão.

Compaixão não é dar gratuitamente. É ter empatia, consolo e compreensão com o próximo. Compaixão não é arrefecer equívocos ou “passar” a mão na cabeça de tutores, fragilizando ainda mais as dores das pessoas que se colocam como vítimas e sofrem por décadas e gerações nesta condição.

“Assim, a Medicina do Terceiro Milênio exigirá do indivíduo profundas mudanças internas, para que assim, possa primeiramente pertencer sem dissociações e sem distorções à sua própria espécie: a espécie humana”.

 Carla Soares

Essa sensação consciente de pertencimento é que permitirá a cura sistêmica da Medicina Veterinária. Não que as demais espécies sejam menos importantes, contudo não são as que nos espelharão nossas falhas e imperfeições que precisam ser aprimoradas enquanto espécie humana.

Os animais, por fim, e neste estágio em que nos encontramos, só nos mostrarão o amor.

“Percebo em meus atendimentos, palestras e conversas com os Estudantes e Médicos Veterinários, que em geral o perfil da “criança” veterinária apresenta um movimento interrompido de amor na infância, e os animais passam a ser válvulas de escape para que esse amor volte a ser expresso, entregue e drenado do coração para outrem, sendo os animais esses receptáculos projetivos e incondicionais de amor. Ademais, é necessária também nossa atenção social, que as escolhas de lidar com animal e vê-lo sofrer de forma fria, e a não empatia com os tutores, pode ser um forte indício de traços psicopáticos.

Entretanto, quando atendo em grupos sistêmicos estudantes e Médicos Veterinários, tento facilitar que essa entrega amorosa interrompida, seja compartilhado com os pais humanos da família de origem, aliviando um tanto a alma das pessoas e também dos animais, que passam a não terem mais emoções projetadas de “eu não sei viver sem você”.

Com isso, podemos amar muito os animais, sem seguir o Ofício de Médicos Veterinários, bem como podemos ter nossas lutas internas e diárias sem cometer o suicídio como os Samurais. Os sentimentos precisam ser instruídos e educados, tão quanto a nossa mentalidade fixa e limitada (mindset fixed) para uma mentalidade progressiva e de profundo crescimento (mindset crowed).

 

Referências e Citações

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