COM QUANTAS AGULHAS SE FAZ UMA ACUPUNTURISTA OU COMO ME DESCOBRI VETERINÁRIA

“Esse ano completo trinta anos de prática da acupuntura em animais. Tenho memórias tão vívidas dessa caminhada, que quase sinto e ouço novamente alguns dos acontecimentos.

Três décadas são bastante tempo e aquela frase clássica “parece que foi outro dia” não cabe aqui. Ainda bem, porque amo e me surpreendo cada vez mais com a Medicina Chinesa Veterinária!”

Dra Márcia Valéria Rizzo Scognamillo – CRMV-MG 9005
Acupunturista Veterinária

 

O INÍCIO

Eu ainda era estudante quando um tutor de um “Vira-Latinha” perguntou, durante uma sessão de acupuntura: “Você tem que rezar antes de colocar as agulhas?”.

Tive uma crise de fúria e não respondi, mas provavelmente fuzilei o cliente com o olhar. Saí do Hospital Veterinário revoltada, jurando provar q a acupuntura não é um misticismo.

Eu era subversiva!

Nesse ímpeto, decidi, então, seguir carreira acadêmica. Estava certa de que ia desvendar os mecanismos de ação do agulhamento em pontos específicos do corpo. Conquistei o Mestrado, o Doutorado, o Pós-Doutorado. No percurso, continuava, obviamente, ouvindo perguntas do tipo “Quem disse para você que isso funciona?”. Nesses momentos, meu desapontamento era ainda maior porque os questionamentos vinham de pesquisadores renomados.

 

MUDANÇA DE PLANOS

A vida traz novidades nem sempre bem vindas e tive de mudar de cidade e me adequar a uma nova realidade. A mudança restringiu minhas opções profissionais e me levou para a prática clínica, ideia que eu simplesmente abominava.

Sempre amei os animais, mas considerava uma coisa menor trabalhar numa clínica veterinária. Essa visão, somada ao meu total despreparo para lidar com a delicada e complexa relação das pessoas com os animais de companhia me levou a tomar atitudes desastrosas.

Como no dia em que coloquei na caixa de correios de um cliente alguns analgésicos com um bilhete dizendo: “Não vou tratar seu Rottweiler, já q vc não segue minhas orientações”.

Começava aí minha “fase obscura”.

 

O PONTO DA VIRADA

Meu bilhete desastroso tinha a intenção de “dar um choque de realidade” no cliente. Mas na verdade era eu quem precisava aprender a aceitar os fatos. Faltava perceber que cada Poodle, cada Persa é trazido por uma pessoa, que cada paciente veterinário faz parte de uma família.

Falando assim, parece óbvio, mas demorei a entender isso. Tenho que admitir que, durante alguns anos, me senti num labirinto.

Levei tempo para alcançar um pouco de clareza e aceitar que faz parte do tratamento do “Salsichinha” e do “Pêlo Curto Brasileiro” tentar entender a condição humana.

Paciente a paciente, fui aprendendo a amar essa prática.

 

O PRESENTE QUE CAIU DO CÉU

Um dia recebo um telefonema em meu consultório de uma colega veterinária. “Posso ir aí conversar com você? Tenho uma proposta interessante a fazer”.

Educadamente eu disse que sim, mas fiquei imaginando se ela, famosa por sua expertise em dermatologia, tinha virado uma consultora de beleza de cosméticos vendidos em revistinhas.

Como estava errada!

Ela e uma oftalmologista estavam montando um centro de especialidades veterinárias, uma iniciativa inédita na cidade. Recebi um convite para participar e antes que ela começasse a explicação, aceitei. Foi tudo muito rápido. Senti um certo desapontamento nela com minha falta de interesse em detalhes do projeto. Eu estava tão surpresa que não tinha vontade de falar, já queria agir.

Quando ela saiu me dei conta de que eu, que tinha caminhado profissionalmente como uma “outsider”(desviante), estava naquele momento ganhando a oportunidade de fazer alianças, de participar de um grupo de pessoas com objetivos comuns.

Me senti incluída.

 

A SPÉCIALTÉ

Assim, unimos nossos anseios de desenvolver uma equipe coesa e com olhar sistêmico, considerando primordial acolher as pessoas “trazidas” pelo Shi-tzu, pelo Bulldog, pelo Persa…

Em setembro de 2014, fundamos a Spécialité.

Nosso núcleo inicial foi formado por duas veterinárias que desde criancinhas amavam e sonhavam ser médicas de animais e eu que construí esse amor numa trajetória, digamos, pouco usual.

Nesses três anos, agregamos outros profissionais e montamos um quadro de especialistas que trabalham com excelência em várias áreas. E temos em nossa secretária a porta de entrada para o saber ouvir da Spécialié.

HOJE

Pergunto como seria rever aqueles que tanto me incomodaram nesses últimos trinta anos. Dizem que não podemos mudar o passado, mas é reconfortante conseguir ressignificar alguns acontecimentos.

Para os cientistas eu digo que a acupuntura ainda não é tida como ciência, mas caminha para tal e que colaborei timidamente para isso.

Para aqueles que julguei místicos, eu digo que rezar vem do Latim recitare, re-citar, repetir. E considerando que ao longo de décadas eu repito e repito e repito minha prática profissional, nesse sentido, sim, eu rezo.

Para aqueles que me impacientaram ao não me ouvir eu digo venham, porque pessoas trazidas pelos animais são bem vindas e serão olhadas e acolhidas na medida das minhas capacidades.

COLOCANDO AS COISAS EM SEU LUGAR

A lógica da natureza é caótica, mas vale e muito, tentar ordenar as coisas. Então, por trás de tudo, acima de tudo, antes de tudo, ao fim de tudo, os agradecimentos:

Obrigada Freud, Bonnie, Chico, Hanna, Raika, Bibi, Xampú, Mané e Zé, Bidu, Cigana, Doninha, Dedé, Mila, Belle, Popó…  criaturas maravilhosas!

Obrigada Professor Tetsuo Inada, meu Mestre, que a despeito do seu gigantesco conhecimento da acupuntura aplicada a pessoas, soube semear e difundir com simplicidade a incipiente acupuntura veterinária no Brasil.

Obrigada Professor Gervásio Henrique Bechara, meu Orientador, que quase nada sabe de agulhas e mesmo assim me acolheu sem preconceitos. E com sua enorme experiência em pesquisa e política da pesquisa, me abriu os caminhos no meio acadêmico.

Obrigada Professor Stelio Pacca Loureiro Luna, companheiro na Associação Brasileira de Acupuntura Veterinária, pesquisador e líder entusiasta que projeta como ninguém as espetaculares qualidades da técnica.

Dra. Valéria Rizzo Scognamillo
Médica Veterinária CRMV/MG 9005
MSc, Phd – IVAS CERTIFIED
Clínica Speciàlité (034) 3227-6933