SÍNDROME DE BURNOUT NA MEDICINA VETERINÁRIA: UMA VISÃO SISTÊMICA

TEXTO DA OBRA QUE ESTA SENDO ESCRITA PELA DRA. CARLA SOARES: SAMURAIS & MÉDICOS VETERINÁRIOS (SINCRETISMOS E SIMILITUDES).

O estresse é uma síndrome definida por muitos cientistas, mas alguns deles serão destacados aqui. Em 1867, um francês chamado Claude Bernard abordou como fisiologista que era, os mecanismos neuroquímicos do estresse em suas pesquisas.

Claude Bernard era da Universidade de Harvard e aprofundou-se no funcionamento da homeostase e da estruturação celular.

Nesta condição iniciática, foi possível preparar o terreno para novas pesquisas, percebendo-se que o estresse é condição multifatorial e idiossincrática, estabelecendo-se quando o organismo perde ou amplifica sua capacidade de respostas a um ou mais fatores exógenos de origem física, química, emocional e/ou espiritual.

Hans Seyle foi um pesquisador canadense que deu sequência as bases doutrinárias da fisiologia, descrevendo o estresse como uma Síndrome de Adaptação Geral, estado de alarme, resistência e exaustão (Borges et al., 2002).

Deste clássico generalista, derivou-se a Síndrome de Burnout, que é uma condição de estresse, porém, relacionado as questões laborais. Herbert Freundeberg em 1970 foi um psicólogo familiar e psicanalista, e o primeiro pesquisador a citar o termo Burnout.

Freundeberg traduziu Burnout como uma condição de esgotamento, de “queimar-se = esgotar-se” por completo. Perder as energias e forças perante a uma situação de estresse crônico.

O International Stress Manegement Association (ISMA) descreve o Brasil como o segundo país com os maiores índicies de estresse, e, em especial Burnout que é uma subcategoria, não por ter menos importância, mas por ser especificamente relacionada as questões dos trabalhadores (laborais).

Médicos Veterinários têm sido acometidos pela Síndrome de Burnout por diversas razões. Condições de trabalho, carga de estudos e relações interpessoais, fadiga por compaixão, relação com a dor do animal e da família, eutanásia, dificuldades sociais, questões psíquicas da formação do profissional, culpa, medo de errar, e diversas questões são fatores elencados no desencadeamento desta síndrome.

Porém, antecedendo a todas estas questões na medicina veterinária, Burnout é apenas a ponta de um grande iceberg.

A ausência de nossas bases existenciais e de alma, são fatores que nos conduzem a caminhar como todos, e com isso, nos perdermos e nos fragilizarmos.

Nossa pobreza de autoconhecimento, permite que nos coloquemos de forma já fragilizada dentro de um sistema completamente adoecido, o que só potencializa nossas dores e nossas questões.

O estado crônico de Burnout somado a ausência e a desconexão de nossa alma/coração, com a dificuldade imperiosa que temos de descer do altar emantado que nos colocamos como profissionais de saúde, dificulta ainda mais nosso reconhecimento e humildade em pedirmos ajuda, o que nos leva a difícil e desesperada tomada de decisão, que é o suicídio.

Assim também eram os Samurais. Trabalhadores incansáveis dos Imperadores, que lutaram até as últimas guerras físicas, em condições primitivas de embate, e de tão exaustos, e já sem se perceberem com outras qualidades de alma, cometiam, por honra, o suicídio.

Mais uma vez, os sincretismos aparecem, e com isso, cabe-nos uma profunda reflexão para que possamos mudar este quadro. Pois, a cada perda o sistema todo, como num butterfly effect é implacavelmente afetado.

Sabe-se que um suicídio afeta sistemicamente a vida de muitas pessoas ao redor, e pelas estatísticas atuais, pelo menos 50 pessoas são atingidas que eram ligadas ao suicida.

Essa visão sistêmica do adoecimento e morte dos Médicos Veterinários e estudantes, precisa ser questão abordada desde a família até as instituições de ensino. Mas sem que nos coloquemos em um local de vítima, é necessário que façamos a nossa percentagem ativa de trabalho interno.

Com isso, nosso trabalho interior de pacificarmos nosso orgulho e ego, deve ser tão tenramente iniciado, com disciplina e atenção

Mais ainda, deve partir do próprio Ser em querer se conhecer e se fortalecer. Sem essa querência, estaremos maquiando os nossos passos com artificialidades existenciais.

E assim, Burnout e Suícidio estarão em nossas sombras não desenvolvidas e não acolhidas. Não adianta querermos uma nova realidade para nossa medicina, se não fizermos as mudanças internas necessárias que somada as mudanças internas do outro, sustentem a nova condição.

Paralelo a estas questões contemporâneas, mas não somente ocidentais, é necessário, que possamos falar sobre as emoções dos Samurais e o que os levavam ao estresse.

Samurais eram proibidos e treinados para não expressar nenhuma emotividade. Eles tinham esse autocontrole na dor, no medo, na fome, nas alegrias e conquistas coletivas e pessoais. Essa inexpressividade dos Samurais, os tornaram seres sofridos internamente.

Eles cultivavam habilidades muito difíceis para se manter num estado de alerta com inimigos reais e imaginários, eles ainda em estado de alerta demonstravam calma, e mais ainda, demonstravam profunda confiança.

Estas características são o que nos doutrinam nas instituições de ensino de medicina humana e medicina veterinária. Demonstrar nossas emoções, medo, fragilidades, é sinal de incompetência técnica. Mas será?

Será que se formos mais humanos e gentis, nosso conhecimento técnico-científico desaparece? Isso é um grande sinal de alerta de adoecimento da alma. Inexpressividade é nos autoignorarmos numa parte muito importante do nosso Ser.

Sem expressividade não podemos extravasar amor, raiva, medo, e se nesta ordem a doença surge, então, estão instaladas as doenças de cunho emocional/mental e por fim, as debilidades e inoperâncias físicas.

Médicos Veterinários e Samurais sem expressividades, podem até vencer lutas e batalhas, mas sucumbirão, mais cedo ou mais tarde de suas próprias dores emocionais e de alma.

Estudos e observações sistêmicos do psiquismo inconsciente dos estudantes e médicos veterinários estão sendo profundamente estudados por mim  numa tentativa de elucidar e trazer à luz da consciência para o sistema veterinário, e assim, possamos tornar o “paciente/cliente”, o primeiro a dar o passo em direção a sua própria cura.

Um carinhoso abraço. Dra. Carla Soares –
Diretora do Portal Soul Vet.