Nosso Parto

Muitos dias antes começam as contrações, devagar, no nosso tempo, sem dor.
Dia 16 as dores, de forma singela , começam a aparecer como uma leve cólica.

Conheço a doula, Uli, conversamos e eu me encanto. Falo sobre minha vida e sobre os meus medos. A noite olho para a lua que está enorme. Relatos dizem ser a ‘’super lua cheia’’. Pergunto a ela quando você irá nascer e se iremos resistir a influência dela.

Nessa madrugada sai de mim uma geleia que chamam de tampão mucoso. Acordo seu papai, desesperada, mas ele me tranquiliza dizendo que ainda temos tempo. O medo vem de forma incontrolável junto daquela secreção. Dia 17 as contrações doem mais intensamente. Vou ao mercado pensando que a hora ainda poderia demorar, poderia ser apenas um alarme falso e eu precisava relaxar.

À noite, as contrações vieram fortes. O calor intenso. Subir as escadas já não era possível. Seu pai coloca o colchão na sala, ligamos a tv, brinco na grande bola, me esforço para relaxar.

Perco o controle das dores. As orientações eram para que procurássemos ajuda quando as contrações estivessem ritmadas. Mas o ritmo é desritmo e dor a mesma, do começo ao fim. Fomos à Casa Angela, uma longa viagem de 10 km.

À 1 hora da manhã chegamos lá. ‘’Um centímetro de dilatação!’’ Era só o que eu NÃO queria ouvir. Se com 1cm a dor era aquela, eu não ia aguentar! Voltamos para casa, tomei chá de camomila e vomitei. A dor era insuportável. Penso na vida, penso no meu parto com minha mãe, penso no meu pai (seu avô). O perdoei naquele momento por ter deixado minha mãe sozinha no dia que eu nasci.

Em casa, arrego! Peço ao seu papai me levar pro hospital pois eu queria, infelizmente, fazer cesárea. Ele, com um jeito confuso e paciente, me enganou. Me disse que não sabia ir pro hospital, só pra casa Angela e que lá escolheríamos a melhor opção. Foi a melhor e mais bem intencionada mentira da minha vida.

Quatro e meia chegamos lá, e com muito carinho as parteiras me receberam. ‘’8cm! 8cm ! ‘’ Não acreditei! Dessa vez tinha uma mistura de felicidade com ‘’acaba logo, pelo amor de Deus’’. Fui então, levada ao quarto de parto. O último ao lado esquerdo, bem escondidinho, com a luz baixa, as músicas que guardei pro momento. Nada de vela, nada de incenso, minhas homeopatias a espera e a construção do ninho mais convidativo para o animal que sou no trabalho de parto.

Era tudo puro instinto, do começo ao fim. Eu só queria aquele cantinho. A Uli chegou e com muito carinho olhava pra mim. Seu papai também me olha e me elogia. Eu não tinha sido abandonada ali.

Pouco pensamento, muita dor, me contorcia, gemia baixinho, a cada 5 minutos e depois de horas fui pra banheira. Quem sabe seria ali? Mas ela, quentinha, relaxante, gostosa, diminui minhas contrações e as contrações são essenciais pra você nascer. Não queria sair dali, me entrego àquela água. Talvez esse sentimento era o seu também. Enfim, me convenceram a sair e você, meu amor, também tinha que sair, com respeito e humanização.

A porta abre entrando uma linda mulher de cabelo curtinho e boca grande. Que linda! Tinha cara de forte, guerreira, mulher que defende mulher, mulher que ajuda a outra mulher parir! Me encantei, me apaixonei. Bianca é o nome dela, nossa parteira. Depois entram a Erica, a Juliana e a Kate. A equipe de anjos estava completa.

Nós íamos nascer, todos eles iam espionar, ajudar e apoiar mas apenas nós íamos nascer.

Filha, venha logo, mamãe não aguenta mais!

Não quero comer, não quero levantar, não quero nada. O relógio olhava pra mim me cobrando: ‘’vai logo!’’. Bola, cavalete, banheira, você na posição certa. Eu com 10 cm de dilatação e você não desce. Eu não confio que somos capazes, eu acho que você tá com preguiça ou sei lá. Dói muito. Não é brincadeira parir.

Fomos para o jardim, me sinto melhor com o ar. Paquero o pé de romã. Como uma folhinha dele, dou uma voltinha . Faço xixi na grama! Hoje eu posso. Posso tudo, peço tudo e nada de você descer.

Volto pro quarto e volto a desistir. Faço exercícios fortes. Nada e tudo.
A Bianca falou pra mim: Ela pode ter feito mecônio, você precisa parir. Aquilo me soou como um ‘’ Vamos vencer essa guerra?! ‘’. Peguei minha armadura de fé e falei ‘’vamos! Vou parir’’. Aceito me alimentar com mel. Muito mel! Minha fonte de energia líquida.

Vamos para o jardim novamente se exercitar. O sol, enorme, também fala comigo: força! Deve estar 40 graus.

Bem ali, às 13h, comecei a sentir que você descia e comecei a acreditar. Então, pediram que entrássemos para o quarto mas eu suavemente fiz um ‘’não’’ com a cabeça. Debaixo daquele pé de romã? Podia? Era muito amor pra uma árvore só, não há de haver nenhum problema.

Respiro fundo e quando sinto as contrações eu grito. Através do grito, você desce. Cada pouquinho. Eu ia conhecer você em pouco tempo! Olho para o alto e quando eu faço força, vejo folhas tampando um pouco do sol. O sol dava força para a contração. As folhas tampam o sol, acalmam, relaxam. Ambos falavam comigo, sol e árvore: força! Relaxa! Inspira! Solta! Faz força! Vai! Ahhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!!!

Dia 18 de outubro, às 14h06 Círculo de fogo e o medo vem se despedir de mim. Vem forte e quando passa a sua cabeça tenho medo da próxima contração. Porque dói demais. Senti você tão próxima.

O medo vai embora, você vem pros meus braços! Eu não acredito! Fomos capazes! Filha linda! Você é linda! Bracinho, perninha, cabecinha, orelhinha, olhinho, narizinho, nossa! Quanto cabelo! Te identifiquei! Re nascemos!
Devagar voltamos pro quarto, nasce a árvore que restou dentro de mim. Cheia de sangue, papai cortou seu cordão e renasceu devagarzinho ao meu lado…

Sofri? Não. Dor? Muita. A dor sem sofrimento é uma batalha.

Vencemos, Catarina. Agora, hipnotizada de amor e rica de hormônios. Se chegar perto eu mordo.

A casa Angela foi uma mãe pra mim e uma avó pra você. A respeite sempre como ela te respeitou. A casa toda, cada funcionário, enfermeira, parteira… todos, sem exceção foram incríveis.

Agradeço tanto

Dra Karinne Marques da Silva
médica veterinária integrativa (Vetnature)
Mãe da Catarina🌱

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