Preguiças, harpias, um amigo ornitólogo & serendipismos.

Estudei e pesquisei por mais de 10 anos as preguiças em seus ambientes naturais, tanto dentro da Floresta Atlântica (incluindo ilhas e mangues), como dentro da Floresta Amazônica.

Quando iniciei meus primeiros estudos de campo com preguiças, comecei minha jornada ao lado de um sistemático e emburrado amigo ornitólogo, excelente fotógrafo e apreciador de cafés em xícaras de alumínio (risos) que queimam os lábios e nos intoxicam (risos), mas que temos guardadas até hoje com uma adorável família de pescadores que nos adotaram numa ilha que foi uma base de campo e pesquisas por longo tempo numa ilha no nordeste do país.

Demorei 7 meses para avistar minha primeira preguiça na natureza, e lembro-me como se fosse hoje, que eu estava super desanimada com a dificuldade de avistamentos destes bichos, devido ao comportamento silencioso e mimético, que me fazia passar “batida” por dezenas elas.

Num destes dias já com o pescoço torto de tanto olhar para o alto das árvores, decidi começar a caminhar olhando para baixo. E esse meu amigo ornitólogo, falou: “ei garota, levanta essa cabeça, as preguiças estão te ensinando a sempre olhar para cima, para o alto. Levante a cabeça”.

Quando ele terminou de falar, de fato levantei a cabeça, mas eu não estava acreditando no que eu estava vendo. Minhas primeiras coletas comportamentais estavam para ser feitas. E eu ganhei um presente por não olhar para baixo mais. Essa primeira avistagem foi de uma linda e enorme fêmea com seu bebê quase inavistável de tão mimetizado que ficam na pelagem da mãe. Um prêmio.

Depois deste dia, eu passei a avistar preguiças quase que diariamente devido ao treinamento fotográfico que dei aos meus olhos. Eles viraram olhos de águias atrás das preguiças, e de fato, as grandes aves de rapina são um dos seus principais predadores na natureza. A National Geographic tem lindas imagens de predação de preguiças por Harpias (Harpya harpyja) ou o grande Gavião Real.

Deste o grande ensinamento do meu amigo ornitólogo, e também do próprio comportamento arborícola das preguiças, eu decidi sempre me relembrar de olhar para cima e não abaixar a cabeça ou desistir de tentar quando tudo parece impossível.

Fato é que, tantos as miméticas e silenciosas preguiças são animais difíceis de monitorar em campo, seus predadores, igualmente, nos exigem altas doses de paciência, só que não pelo mimetismo, mas pelo desaparecimento dos mesmos. Muitos rapinantes de grande porte estão ameaçados de extinção ou vulneráveis, porque são exigentes quanto a qualidade ambiental das florestas (fortes bioindicadores). Muitos preferem áreas de extensas florestas fechadas, com estratificação de altos dosséis, o que é bastante difícil de ser encontrado na Mata Atlântica nos dias atuais.

Os principais ataques de harpias às preguiças, são bem documentados na Venezuela, Panamá e Floresta Amazônica Brasileira. Tive a oportunidade de presenciar no nordeste do Brasil, ataques do Gavião-de-Penacho (Spizaetus ornatus) às preguiças, e pude registrar muitas vezes a interrupção de deslocamentos ou alterações comportamentais devido a presença destes predadores em áreas sobrepostas a das preguiças.

Na natureza só consegui avistar a harpia uma única vez. Ela estava no alto de um grande Dossel na Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá – próximo a Tefé/AM. Nesta ocasião inclusive fui ao encontro do primeiro pesquisador-escritor de preguiças Dr. Helder Lima de Queiroz, que publicou um belíssimo livro (que foi meu de cabeceira) durante anos dos meus estudos, chamado: Preguiças e Guaribas: Os mamíferos folívoros arborícolas de Mamirauá. Um clássico aos pesquisadores dos Xenarthras.

Muitas vezes não é possível avistar as Harpias, mas é possível ouví-las vocalizando dentro das grandes florestas, e te falo sem medo: é assustador e proporcional aos seus 3 metros de envergadura.

Bom, depois desse raro contato, pude ver famigeradas Harpias em cativeiro em Brasília, Recife, Emilio Goeldi e numa visita ao Parque Summit no Panamá, que possui um centro de estudo e reabilitação destinado exclusivamente aos grandes rapinantes, e em especial a Harpya.

No Panamá ela é considerada a ave símbolo do país, e muitos estudos e pesquisas tem saído de lá.

No fim destas aventuras, eu e meu amigo ornitólogo tínhamos material para inúmeras publicações em congressos e revistas científicas. E o fizemos. Publiquei mais de 30 trabalhos científicos sobre minhas pesquisas com estes animais, e 5 destes trabalhos foram premiados.

Foi um bom “sacríficio”, porque claro, eu sentia um imenso prazer em estudá-las, mas morar em barracas de camping, dormir no carro, tomar banho frio a noite e não ter as unhas do pé por longas caminhadas com botas, é um pouco diferente de chegar em casa e dormir gostoso numa caminha depois de um belo banho quente.

Desta forma, todas essas experiências com as pesquisas me ensinaram muito. Percebo que quando estamos abertos, somos capazes de sempre aprender e encontrar algo a mais do que estávamos buscando.

A estes achados “extras” e aparentemente ao acaso, dar-se o nome de Serendipismo.

Serendipismo só acontece aos que estão abertos e conectados com o aqui e com o agora, porque ele é uma oportunidade de você receber uma outra coisa da qual estava buscando. Muitos achados científicos foram pautados no seredipismo. Você esta pesquisando “algo” e de repente todo o seu repertório te leva a um outro “achado”, no qual você não estava esperando.

Claro, minhas pesquisas com preguiças me levaram aos achados que eu buscava, mas também ao serendipismos lúdicos do momento presente. Abaixo seguem alguns deles…

As preguiças me ensinaram a nunca olhar para baixo, mesmo quando estamos exaustos. As Harpyas me ensinaram que tamanho é documento sim (risos) e que devemos ter olhos atentos e aguçados quando desejamos algo. E meu amigo ornitólogo mal-humorado e detalhista, me ensinou que café, fotografia, musica e amigos de alma ficam eternizados nos corações. Love it!!!

                                                        Um abraço de preguiça
Carla Soares

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