Quando não há o que fazer

Morava na Amazônia, e estava num belo dia de folga do trabalho médico. Contudo, porém, todavia (risos), por volta das 15h de um domingo lindo, meu celular toca. Era meu comandante me acionando para uma emergência no quartel, dizendo ter recebido um filhote de bode enterrado vivo.

Pensei, meu Deus, coitado! O que eu vou fazer? No trajeto de cerca de 20 minutos até o quartel, fui revendo todos os meus conhecimentos de emergência, revendo minha farmácia, revendo os materiais que eu tinha disponíveis, relembrando a anatomia de um bode (que claro, raciocinei como se ele fosse um cachorro, pois nunca me detive na anatomia de um bode), revendo outras coisas que não me recordo agora.

Chegando no local, meus enfermeiros militares já estavam lá de prontidão, e com o pobrezinho do bebê bode, vítima de magia negra.

Ele era tão pequeno. Tentei me concentrar no que era possível fazer, porém, meu coração já estava me dizendo, não há o que fazer. A cena era de um filme de terror. O paciente estava vivo, de fato, mas estava com a cavidade abdominal aberta do tamanho de uma “mastectomia completa bilateral”. Pontos com linhas de pesca o alinhavavam como um saco de batatas. Quando eu o movimentei para mudar de local e aquece-lo, os pontos mal feitos, romperam sob meu colo, e de dentro dele caiu frutas inteiras, pedaços de amaldiçoados papéis, pedras, velas e outros objetos que não me lembro.

Nesta hora, eu sabia que nada mais poderia ser feito. Foi a primeira vez que vi um animal chorar com lágrimas e em silêncio. Enrolei-o num cobertor, coloquei ele sob meu colo, sentei-me no chão sem conseguir conter minhas lágrimas, e coloquei um soro aquecido em sua jugular

Fiz uma dose super alta de analgésicos e esperei a morte vir. Nesta época eu não era REIKIANA, mas minhas mãos foram intuitivamente para seu chacra frontal e cardíaco.

Me lembro que me comunicava telepaticamente com ele, e mentalizava somente as únicas palavras: “Desculpa, desculpa desculpa, pelos seres da minha espécie, que não sabem o que fazem. Desculpas, desculpas…”

Quando abri meus olhos, percebi que ele já havia partido. Por muito tempo fiquei com aquela cena forte em minha mente. Doía em meu coração sempre que eu lembrava. Muitas vezes me culpei, “e se, e se, e se…”. Aqueles questionamentos que sempre fazemos se tivéssemos adotado outra conduta.

Mas, esse bebê vitima de abuso, desrespeito e em tão tenra idade, me ensinou uma bela lição.

Muitas vezes, os animais preferem morrer perto de certas energias, perto de certos olhares, eles sentem isso. E hoje, mais madura, sei que não foi por acaso que ele foi parar em minhas mãos. Ali houve amor, houve aconchego, houve um olhar, houve uma cumplicidade. Aprendi também que isso é exercer a medicina quando não há mais nada a fazer…

Mesmo não sendo possível fazer nada, havia uma imensa energia de amor rodeando a partida dele para algum lugar no universo. Muitas vezes somos escolhidos apenas para estar ao lado, para não partirem sozinhos….

Muitas vezes eles nos escolhem apenas para morrer em paz.

E, nesses casos, indubitavelmente fica o ensinamento de que não somos nem “semi-deuses”, e só por esse notável detalhe, tão pouco devemos ser adorados…

Dra Carla Soares
Diretora do Portal Soul Vet
(Caso acontecido em 2010/11 na cidade de
Boa Vista – 200 km da Venezuela.
Eu era 1º Tenente Veterinária do 7º
 Batalhão de Infantaria de Selva.)

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