Uma Veterinária de Alma

Eu nunca tive coragem de ir a um médico que pudesse me dar um diagnóstico de DDA ou TDAH (transtorno e déficit de atenção e hiperatividade), mas meu marido e vários amigos já me deram esse diagnóstico faz tempo.

Uma vez meu marido comprou o livro “mentes inquietas” e leu, depois me deu de presente e disse “leia, é você”. Comecei a ler e achei aquilo extremamente enfadonho, não tinha uma novidade, uma linha que eu lesse sem pensar “que repetição, isso acontece comigo todo dia”. Larguei o livro ali pela décima página. “Quer prova maior de que é uma DDA?” Perguntou meu marido.

Quando eu era criança, era extremamente tímida, me fechava no meu mundo e minha cabeça girava a milhões de rotações por milésimo de segundo, embora externamente eu parecesse o ser mais calmo do planeta. Roía as unhas desesperadamente… Vivia no mundo da lua, absorta nos pensamentos que fervilhavam na minha mente e eram muito, muito mais rápidos e interessantes do que o que os professores estavam falando ali na frente do quadro.
Eu amava as aulas de literatura e português. Com as palavras eu podia brincar, inventar, soltar a imaginação que as outras disciplinas prendiam. Nunca esqueci um professor de literatura, carioca, muito louco, que eu tive acho que na oitava série, ou primeiro colegial. Nas suas aulas eu me sentia na própria barca do inferno enquanto ele a lia. Era na literatura que meu pensamento acelerado encontrava lugar. Eu gostava de artesanato, pintava, fazia peças em cerâmica, casinhas de palito de picolé, ali minha mente se aquietava e os pensamentos dançavam menos soltos no ar.
Amava teatro, decorar as falas era difícil pra mim, mas no improviso ninguém percebia que eu tinha trocado metade do texto original. Foi penoso ser uma criança de mente acelerada, mas que parecia ser calma demais. Com uns 10 anos eu já escrevia textos imensos e tive uma decepção enorme quando, aos 12, a professora de português me chamou a atenção no meio de todo mundo dizendo que aquele texto não era eu que tinha escrito e que não era pra pedir para um adulto escrever de novo da próxima vez. Me tirou um bocado de nota, como se eu fosse culpada por ter uma mente que já percorria km à frente da minha idade sem que eu nada pudesse fazer para detê-la.
Hoje eu sinto o cansaço pela mente acelerada que Deus me deu de presente. Fazer uma só atividade é quase impossível pra mim, estou sempre desenvolvendo várias ao mesmo tempo. Consegui, com muito esforço, parar de abandonar os projetos no meio. Essa era uma das maiores dificuldades que eu tinha. Hoje, nem que seja chorando sangue, termino o que comecei. Na prorrogação, mas termino.
Eu preciso criar, eu preciso mexer as mãos, eu não paro de balançar os pés. Mas eu consigo meditar. E adoro! Desligo por um tempo que parece infinito, mergulhada em paz, mantra e escuridão. Pra, em seguida, voltar a ligar automaticamente o turbilhão que move a minha vida.

Eu sei que minha mente não é normal e o passar da idade tem exacerbado isso. Talvez você não saiba o que é sentir desgaste físico sem nem ter levantado do sofá, mas tendo sua mente já realizado 4567898 projetos, tarefas, atividades… Ela já pensou, organizou, realizou, sofreu as consequências, mas meu corpo ainda nem se mexeu. E já cansou.

Dizem que ritalina faz isso parar. Nunca tomei, nem quero. Gosto dessa sensação de poder tirar da minha mente qualquer coisa mais interessante que um coelho duma cartola. Ali dentro não há impossível e qualquer um ficaria de cabelo em pé se pudesse visualizar os filmes simultâneos que rolam ali. E, na maioria das vezes, o drama é bem esse: ali tudo é tão possível, mas aqui fora há limitações demais!

Deve ser por isso que, dentro de mim, sou correnteza fluindo em liberdade. Por fora, barricadas tentam me conter. Mas a liberdade… Ela sai pelos buracos dos ouvidos, pelos poros da pele e toma conta de tudo que a gente nem imagina existir. Inquieta, “abilolada”, louca, impaciente, DDA… Chame do que quiser. Apenas livre, do jeito que eu puder.

Karine de Oliveira Marques Pacheco
CRMV-PR 13419,
Veterinária integrativa, acupunturista e
consultora em alimentação natural.
Uma eterna buscadora por autoconhecimento e integração
dos tutores nas terapias dos seus tutelados.

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