O Caminho do Meio

O Príncipe Sidhartha Guatama (O Buda) descobriu o CAMINHO DO MEIO após anos de mortificação da carne (matéria) com meditação profunda, abdicando de comer, beber e se relacionar.

Foram 6 anos de profundo caminho interior e busca por uma consciência sem ilusão.

Um dia, ao despertar de um estado meditativo, percebeu um barco passando no rio a sua frente, e escutou um homem afinando seu instrumento. Um outro homem ao lado, disse, não afrouxe demais as cordas, senão o som desejado ficara desafinado. Nem estique demais as cordas, que elas se romperão. Neste instante, Buda entendeu que os extremos nos levam a não-conclusão da “obra” (TAO), nos tiram do fluxo natural.

Bom, no meu caso, eu descobri o Caminho do Meio assim: Sempre fui humanamente radical em meus posicionamentos e escolhas. Tudo certo para cada nível de consciência em que nos encontramos no momento, por isso não me torturo mais sobre algumas minhas antigas atitudes. Nessa rigidez mental extremada, um dia, depois de tão exausta em querer me manter em tal “opinião”, resolvi “chutar o balde e o pinico” e ir para o outro extremo, que foi não ter nenhuma opinião formada sobre tudo.  Sabe, entrar numa espécie de auto anulação.

Nestes dois extremos, eu percebi que todo o sistema, ou quando estamos totalmente enroscados na roda da vida, sobretudo sem nenhuma consciência de quem nós somos, eu me vi tendo que fazer escolhas o tempo todo. Gosto disso, não gosto daquilo. Essa musica me agrada, essa outra não. Essa forma de exercer a medicina é melhor que aquela, e por ai vai. Gosto deste carro, deste outro não. Gosto de criança e não gosto. Quero casar e não casar.

E a lista não para, e é infinita: desde roupas, estilos, lugares, cheiros, pessoas, manias. Enfim, como falei a lista de coisas que escolhemos até inconscientemente é interminável. Já parou para refletir quanto tempo da sua vida você decide essas coisas e o quanto você se esforça para mantê-las?

Dentro destas infinitas escolhas, vamos achando nossos “times”, nossos “grupos”, nossos “guetos”, nossos “vocabulários” e vamos nos tornando cada vez mais segregados do que não gostamos ou que consideramos diferentes de nossas “escolhas”.

Até que um dia me perguntaram se eu gostava de comer doces, e eu prontamente respondi, não. Não, não gosto! Daí um dia estava num desses momentos carentes de algo que não sabemos, e que nem meditação resolve, e resolvi detonar uma caixa de chocolate BIS.

E, no meio de tantos gemidinhos hum hum hum de prazer, me dei conta daquela resposta tão curta, direta e firme que um dia dei sobre “não gostar de doces”. Na hora meu Mentor Miguel, se aproximou e me perguntou com seu sorriso doce e jovial: “Filha, não foi você que disse que não gostava de doces? E esses olhos fechados e esse bico todo sujo de chocolate? “

Foi neste momento, que percebi que gosto de chocolates e doces, mas raramente e sem um momento específico.  Percebi que não foi porque eu escolhi entre gostar ou não, que eu poderia não comê-los com prazer. Nos prender a essas questões são uma grande bobagem.

Repara nos seus círculos sociais, como as perguntas surgem, e como parece que temos que nos posicionar sobre isso ou aquilo, senão fica parecendo que não temos gostos e opiniões, e com isso, muitas vezes tememos ser afastados dos “grupinhos” por não ter que opinar certas coisas? A insegurança nos faz caminhar em “blocos”. Um dia Miguel (meu amigo espiritual) disse para mim: “Filha, caminhe sozinha, para que você possa se conhecer melhor e com profundidade. Perca o medo, e conseguirás andar entre todos”.

Aprendi que quando decidimos por “isso” ou “aquilo”, nos sentimos seguros e firmes. Só que ficarmos fincados em nossas próprias construções, que com o tempo nos levam a exaustão, haja visto que ficar focado em algo, não é nossa verdadeira natureza. Não nascemos de um jeito, e morremos da mesma forma.

Somos totalmente resilientes e naturalmente mutáveis, inclusive no aqui e no agora. E devemos fazer isso sem culpa e sem medo de não sabermos quem somos. Não são nossas escolhas atuais que nos definem, nem tão pouco as escolhas futuras, ou passadas. Somos o conjunto de tudo isso.

Esse aprendizado de não ter mais que me definir nisso ou naquilo, me deu muita paz para transitar pelos meus momentos e necessidades com bastante leveza.

E, morro de rir quando alguém me diz que isso ou aquilo é a minha “cara”. Ontem foi, hoje não sei, e muito menos amanhã. Não me defino mais em nada, nem como médica veterinária holística. Hoje estou vivenciando essa magna experiência, mas se amanhã eu tiver que passar uma dipirona, está tudo certo.

Isso é um pouco do Caminho do Meio. Paixões extremadas nos conduzem aos desgastes de termos que nos manter firmes em personagens que já não se encaixam mais em nós. Desta forma, caminho pelo meio, sem decisões muito concretizadas, porque sei que podemos mudar de uma hora para outra, somos imprevisíveis para nós mesmos, e não precisamos gastar tanta energia para nos manter posicionados. Podemos afrouxar um pouco as cordas de nossa “persona” e transitar pelo gosto e não gosto, sem apegos.

Hoje se me perguntarem se gosto de chocolate, responderia sim e não ou não sei, ou depende (risos). Muitas pessoas ficam “putas da vida” quando respondo ao questionamento delas sem uma “exata posição”, porque elas esperam a segurança de conviver com você, ou de alguma afinidade que ligue o seu gosto ao delas. Afinidade não são conjuntos de gostos, afinidade se mede pela energia do contato.

Já reparou que tem pessoas que pensam diferentes e gostam de outras coisas que nós gostamos, e ainda assim sentimos profunda conexão com elas? E já reparou que as vezes pessoas com as mesmas opiniões nem se afinizam tanto conosco? Pois é.

Aprendi também que o apego demasiado aos fatos apresentados pela ciência também é seguir pelo extremo. Quantas vezes defendemos uma ideia até morrer, e depois de alguns anos, se descobre outras coisas que derrubam aquela pesquisa inquebrantável? Devemos seguir com leveza.

Eu aprendi a não gostar de respostas prontas, porque nesta jornada, nunca vamos ficar totalmente prontos para dar respostas definitivas, nem pela ciência, e nem pela vivência.

Há uma única pergunta primordial: Quem eu sou?

E você? Gosta de chocolates?

Um beijo com amor
Carla Soares
Diretora do Portal Soul Vet

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.