Meditação e Medicina Veterinária? Uma Nova Perspectiva de Terapia

Bom, recentemente tive umas das experiências mais mágicas da minha trajetória como médica veterinária. De forma inédita no Brasil, uma Universidade de ensino de medicina veterinária, na capital do país, abriu seu auditório, para cerca de 250 estudantes e colegas, para uma aula inaugural com uma palestra intitulada “Aspectos Clínicos, Neuroquímicos e Espirituais da Meditação na Medicina”.

Ter recebido essa missão/convite me emocionou tanto, que quase que a aula não saiu (risos). Esses alunos talvez não tenham dimensão do que aconteceu neste dia e neste evento.  Quero externar minha profunda gratidão e admiração ao coordenador do curso, Prof. Dr. Carlos Alberto Junior, por seu olhar e entendimento de abrir espaço a estes jovens de terem contato com eles próprios.

Estamos perdendo colegas e jovens para o suicídio na medicina veterinária mundial. Mas não porque nossa medicina é esquisita. Sim, ela é um pouco esquisita (risos), mas essa dor da alma que leva jovens e jovens a retirar a própria vida, é desencadeada por falta de um contato consigo mesmo, falta de se conhecer mais profundamente em sua alma e coração. Essa desconexão nos conduz a uma vulnerabilidade de situações na vida, e aí sim, entram as questões da medicina veterinária, que só funcionam como um gatilho para a dor, o sofrimento e por fim o suicídio.

Sim, a medicina veterinária tem seu lado poético e romântico de cuidar do “bichinho”. Mas, ela também nos coloca em situações de presteza e eficiência a salvar vidas, a baixa remuneração, a muitas horas de estudo/trabalho, a um lado egóico de competição e vitrines, crença de escassez, e muitas outras situações, como maus-tratos aos animais, mortes e etc.  Tudo isso, “suga” a nossa energia, nos exaure e nos desequilibra. Porém, se nesse caminho tivermos um autoconhecimento de nós mesmos, uma autonomia de nos expressarmos com nosso coração, tudo isso pode ser amenizado e temporalmente menos presente em nossas vidas.

Uma destas formas de autoconhecimento profundo é a MEDITAÇÃO. Ela nos conduz a um vazio interior repleto de significados, que são inerentes a cada meditador.  Cada meditador vai encontrar o que precisa ser encontrado num estado meditativo, que obviamente, pela forma caótica com que vivemos, é no inicio extremamente desconfortável.

E, em geral, o primeiro pensamento nas tentativas iniciais é: “Caraca, não vou conseguir (risos)” normal, é assim para quase todo mundo. Arrumamos desculpas porque dói as pernas, os joelhos, as costas, o olho e até o cabelo (risos). Os pensamentos parecem que ganham ainda mais velocidade e inconstância quando nos soltamos um pouco, porque na consciência, estamos tentando controlar até nossos pensamentos o tempo todo. “Isso eu posso/quero pensar… isso não quero pensar” e por ai vai.

Na meditação, mesmo que por poucos minutos, vamos entrando num estado alterado de consciência, a cinética de elétrons e a frequência cerebral diminuem e expandem ao mesmo tempo, e a medida que vamos relaxando, vamos deixando os pensamentos fluírem… e isso é muito louco, porque vem coisas incríveis na mente. Isso é meditar (risos). Muitos desistem, porque acham que meditar é ficar sem pensar em nada. Certo, mas isso é só para os monges do mosteiro Shaolim no último nível de treinamento quando já levitam e recebem a marca do tigre e do dragão nos antebraços.

Aqui para nós, ocidentais, parar um pouco, ficar em silêncio e observar os pensamentos e ter foco na respiração ou em outro ancoramento a seu critério, já é uma bela conquista, sem deixar de ser de suprema eficiência.

Falaremos em vídeos e textos muito mais sobre a meditação e como ela pode nos ajudar em nossa caminhada. Mas, este texto aqui é só para dizer o quanto essa oportunidade abriu as portas para uma nova forma de ver a medicina veterinária.

E sabe qual foi a maior revelação da necessidade de se trabalhar estas questões todas nos bancos acadêmicos formadores de novos Médicos Veterinários? Foi a quantidade de mensagens e comentários de estudantes e profissionais após a palestra sobre: “Nossa, precisamos conversar… como trabalharmos a meditação em nossas aulas?” “Dra. Carla, me emocionei, era o que eu estava precisando”. “Dra. Carla, não tinha consciência que eu mudava meu estado interno quando eu parava e prestava atenção em minha respiração…”. “Dra Carla, muito obrigada, foi por um tris”.

Tudo isso nos leva a crer que há uma necessidade de nos acolhermos. Esses poucos comentários que compartilhei são na verdade um PEDIDO DE SOCORRO. De mostrarmos de forma tão importante para a vida do profissional, como a anatomia, fisiologia, clínicas e cirurgias, é ele saber lidar com ele próprio. Ele ter consciência de sua verdadeira existência, e ter esse controle. Saber lidar com suas emoções, para que somente assim, sejamos capazes e habilitados no exercício de lidar com a pressão, com a morte, com o sofrimento dos tutores e dos animais, e mais do que isso, saber lidar conosco.

Na verdade, é a única e principal coisa que devemos saber lidar com riqueza de detalhes e nuances: Conosco. Tudo é passageiro. Tudo muda. E tudo que vivenciamos só nos leva a lidar conosco mesmo. Uma vez sabendo compreender a si mesmo, todas as demais coisas e situações serão o reflexo de seu entendimento interior.

Tudo nos é revelado de forma sutil e muitas vezes até discreta, para que possamos olhar para dentro de nós. Por exemplo: Uma pessoa é grosseira com com você, e você se magoa ou se irrita. Ela esta revelando sentimentos e emoções que estão dentro de nós, mas se nos conhecermos verdadeiramente, perceberemos que a grosseria da pessoa é dela, e nada tem a haver com você. Isso faz com que você não seja atingido, ou se for, não vai ficar 3 dias em posição fetal chorando. Vai ficar apenas 20 minutos (risos).

Estamos sequestrados para o externo. E somos sequestrados todas às vezes que ficamos imersos no mundo virtual vazio, em coisas sem significados, e até mesmo numa medicina newtoniana e mecanicista, que não percebe numa anamnese a integração e conexão entre as coisas. Nem o quanto o nosso sequestro emocional nos impede de ver essas situações. Ficamos num estado suspenso. Sem presença.

Tudo que sai do nosso campo se visão, se torna complicado de lidar. Espirito e emoções são ocultados por muletas de distrações, conversas cansativas e vazias, e muitas vezes, drogas e outras perversões. Tudo para nos anestesiar da falta de nós mesmos. Ninguém deseja morrer se amando. Ninguém tira a própria vida quando descobre seu poder. Quando se sente pleno. Tiramos a nossa própria vida, ou sofremos, quando estamos no outro, e não estamos em nós.

Para que sejamos bons médicos humanos, veterinários, terapeutas, psicólogos e afins, devemos antes de mais nada, estudar-nos e compreender-nos cada vez mais quem somos verdadeiramente, a vida nos mostra no amor e na dor, mas quando meditamos, permitimos que essa entrega a nós mesmos seja sólida, segura e irreversível. Ninguém tira de nós o que conquistamos dentro de nosso interior.

Ademais, tudo que for externo, é ilusão, e uma medicina sem desenvolvermos e conquistarmos nosso lado interno, sem sermos conhecedores de nós próprios, é um estado tão adoecido quanto o do nosso próprio paciente. Somos médicos adoecidos e autoabandonados, e temos uma medicina adoecida e abandonada.  Mas, sinto verdadeiramente no meu coração. Estamos mudando…

Gratidão a todo o corpo Docente e Discente do UniCEUB/DF por ter dado o primeiro passo. Estamos juntos…

                                                                       Com MUITO AMOR por todos,
Dra. Carla Soares – Médica Veterinária
Diretora do Portal Soul Vet

Clique aqui e Assista

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.