A caverna escura

Quando estamos desenvolvendo nossa sensibilidade e nossa consciência, existem várias fases e etapas, e elas podem não se cumprir de forma igualitária para todos, mas, no geral, dependendo da profundidade que decidimos mergulhar dentro do nosso próprio universo, teremos a temida etapa da “caverna escura’, ou também conhecida como a “noite escura da alma”.

No oriente, há um treinamento dos monges do mosteiro Shaolim altamente rigoroso, onde o discípulo é conduzido de fato, a uma caverna fechada e escura, aonde passa 3 anos, 3 meses, 3 semanas e 3 dias em completa reclusão e solitude, mas, há um caminho mais suave e natural conhecida pelos ocidentais, que é a passagem pela “noite escura da alma”.

Nesta etapa de nosso desenvolvimento interior, preferimos o isolamento e o não convívio social. Nesta etapa, as pessoas ao nosso redor nos chamam de bipolares, esquizóides, depressivos e outras denominações leigas para o natural afastamento ou hipersensibilidade, que nos remete a uma profunda reflexão aos nossos questionamentos mais profundos, solitários e existências.

Quando estamos imersos na caverna escura, sentimos dores psicossomáticas, dores na alma e dores reais no peito (chakra cardíaco), e dependendo do nível de enraizamento energético com algum assunto, momento, lembrança ou credo, a dor pode ser muscular e ósseo-articular, chegando a ser nevrálgica. A fisicalidade da dor decorre em geral do desprendimento atávico de nossos pensamentos, sentimentos e crenças que deixam de fazer sentido, e passam a ser liberadas de forma consciente. A soltura energética é tão intensa, que podemos adoecer de forma a concluir nossa catarse ancestral e de credos.

No início de minha jornada pela caverna escura, minha catarse foi tão intensa que eu tinha febres constantes e dores que me imobilizavam fisicamente. Tive momentos de não conseguir suportar as dores físicas, e fui encaminhada a um reumatologista que me diagnosticou com fibromialgia grave. Tinha dias que eu não conseguia colocar meus pés no chão de tão intensas que foram as minhas dores.

Sincronisticamente, a fase aguda das minhas dores foram passando a medida que eu ia desconstruindo toda a minha cultura, meu modus operandis de vida, meus relacionamentos, minhas socializações, meus pensamentos recorrentes, minha educação, minha ancestralidade, e minhas crenças boas e ruins. Fui soltando tudo, chegando ao ponto de nada mais fazer sentido algum.

Neste ponto crítico é que devemos ter um certo cuidado, porque neste vazio assustador, é onde temos, basicamente, dois caminhos que podem ter uma linha bastante tênue, e por isso devemos estar bem atentos.

Quando atingimos a catarse completa na caverna escura, e a falta de significados para tudo que foi construído ao longo dos tempos (incluindo informações akáshicas advindas de vidas passadas e futuras em nossos corpos emocionais, físicos, mentais e espirituais), podemos neste ponto do Caminho (Tao) pensar em tirar a própria vida (por não estarmos acostumados com o vazio) ou podemos reemergir de uma forma tão sublime e poderosa, que passamos a um renascimento esplendoroso e interno, que nos dará sustentabilidade por toda a nossa eternidade.

A primeira pergunta em geral é: como vou conseguir viver neste vazio pleno onde tudo esta transbordando com excessos, sejam as pessoas, os lugares, a vida em si?

Meu caminho ao sair da caverna escura, foi aceitar e me acostumar com a minha própria luz. E, num segundo momento, foi aprender a permanecer na solitude deste vazio, mesmo em meio a uma multidão. Aos poucos, fui aprendendo a sentir minha visão, meus sentidos e meu novo corpo físico-emocional.

Minha acomodação fora da caverna foi suave, gradativa, aconchegante, e com momentos lúcidos de querer voltar para caverna. Vagarosamente, fui aumentando meu campo de luz, sem ter que me preocupar tanto com o que estava “fora” de mim. Desta forma, fui conseguindo transitar por tudo e todos sem mais me deixar afetar internamente e sem querer me apegar a nada mais.

Esse renascimento é tão glorioso que se torna ridículo querer dividir com vocês. Não porque vocês não merecem, mas porque a experiência é inegavelmente individual e intransferível.

Mas, o que desejo compartilhar é que a caverna escura é de fato assustadora, mas ela tem uma saída. Esta saída só pode ser encontrada quando deixamos de “brigar” com o escuro.

Quando, já exaustos de nos debater, convido-os a rendição e a aceitação da falta de controle à total escuridão.

Contudo, quando há essa entrega e quando relaxamos, nossas células retineanas vão se acomodando, e de forma metafórica, aos poucos vamos passando a conseguir enxergar tudo o que antes não conseguíamos.

Muitas pessoas vão seguindo no caminho e interrompem o processo quando chegam na fase da “noite escura da alma”. Mas, incito-vos a continuar, pois tudo que há no céu, há na terra. Tudo que há dentro de nós, há fora. Desta forma, tudo que há na luz, há de ser encontrado de forma complementar na escuridão. Quando aprendemos a dominar nossa escuridão, então, só haverá a luz.

Não se assuste com esse novo vazio. E, ao titubiar no caminho, não corra desesperado para substituir o que foi removido. Tente se acostumar com a leveza deste vazio. Ele é seguro e repleto de espaço para o novo, que passará pelo seu vazio, sem um dia se tornar velho e pesado.

                                                   Um carinhoso abraço
Carla Soares

2 respostas para “A caverna escura”

  1. É viver o aqui e agora. É confiar que tudo muda, a tempestade sempre passa, e sempre haverá uma saída, quando não, várias.
    Dentro da caverna temos que manter a confiança de que tudo que acontece nesse universo é a caminho da evolução. Não há outro.
    Como disse Deepak Chopra, no meio do caos devemos nos alegrar , pois ali existem todas as possibilidades, já que nada é pronto.
    Que todos possamos encontrar nossa luz mais profunda.
    Gratidão. : )

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.