Um brasileiro na Austrália: Uma carta para sua mãe

“Filho, quando você volta pra casa?

Qualquer pessoa que já decidiu sair de casa para os mais diversos fins, e deixar de lado o aconchego do lar e o carinho de sua família, já ouviu essa frase em algum momento. Frase essa tão dolorida, e ao mesmo tempo tão difícil de responder.

E como dizer não às pessoas que nos deram a vida, nos criaram com amor e carinho, nos educaram, e agora, esperam ansiosamente pelo nosso retorno à casa onde nascemos, nos criamos? Então, sai aquela resposta gaguejada de quem não tem certeza do amanhã, de quem já abandonou o estilo de vida onde projetos sólidos são formados, desenhando uma ideia de vida com “início, meio e fim”, que já não desperta atenção e por momentos causa calafrios em quem decidiu se aventurar pelo mundo.

Então, pai, mãe, família: Infelizmente, eu não sei quando volto pra casa! Desculpa por não poder estar aí tão breve, e por não saber ao menos o que farei no próximo mês.

Saí de casa pra buscar uma experiência em que todos encaram como algo temporário, pra se aprender uma nova língua, conhecer novas culturas e novas pessoas, e então retornar ao seio familiar com experiência e currículo reforçado, sonhando em voltar e trabalhar em uma grande empresa, com um ótimo cargo, com novas visões e projetos. Encontrei aqui uma que, até então, definiria como loucura.

Trabalhar em trabalhos pesados com jornadas intermináveis, sem a “segurança” de uma carteira assinada ou férias remuneradas, em que a sexta feira que era tão aguardada para fazer festa, hoje é aguardada pra dormir cedo e recuperar o sono perdido. Morar com pessoas de diferentes culturas, aceitar diferentes modos de ver a vida, lavar a própria roupa, louça, limpar a casa. Sem esquecer do caro aluguel semanal de um lugar que mais dia ou menos dia, terei que me mudar, e eu nem imagino pra onde. Não sei! Não deu tempo de pensar nisso, porque na próxima semana tem que pagar a escola, e aí vem o trabalho dobrado e a exaustão diária.

Resolvendo esse problema, já tem o visto pra ser renovado logo ali na frente, o que iniciará uma nova corrida do ouro e uma busca incansável pelo valor necessário, pois fizemos o impossível pra poder permanecer no país onde estamos e continuar essa vida tão estranha. Que graça tem essa vida?

E então descobri, que em casa, mãe, eu nunca fui desafiado pela vida. Meu maior problema era ir na aula ou esperar a sexta feira chegar pra iniciar o fim de semana com churrasco e bebidas, que por sinal, é uma coisa que eu continuo gostando, mas já não é nem de longe minha prioridade. Descobri que a exaustão é algo que me traz felicidade. Descobri que encerrar a semana tendo trabalhado incontáveis e longas horas de trabalho duro, me traz um sentimento de realização que eu nunca havia tido. Que chegar em casa e desmaiar no sofá me traz uma sensação de dever cumprido, acompanhado de um sorriso no canto da boca e pensar: Eu consegui! Eu trabalhei mais duro do que imaginava que poderia! Eu juntei o dinheiro em tempo recorde! Eu posso! Eu sou mais forte do que eu pensava! Como diria Walter White, “eu gostava daquilo, eu me sentia vivo”. E então, querida mãe, nessa rotina de loucura eu encontrei um sentido pra minha vida. Eu encontrei uma vida que me desafia e me testa diariamente. Eu encontrei um mundo em que eu posso descobrir meus limites e dar o meu melhor!

Cada um tem o seu legado, e cada pessoa vai encontrar seu caminho de diferentes formas, mas foi assim que eu percebi que eu estou vivo. A vida, pela primeira vez, corre pelas minhas veias, eu a sinto, clara como água, me empurrando e mostrando que sou forte.

Pra quem não sabe do que estou falando, convido a fazer uma pequena reflexão: Sabe aquela sensação de terminar a monografia? Sabe aquela sensação de passar em uma prova que você estudou muito pra isso? Sabe a sensação de exaustão após um longo e satisfatório treino na academia? Então, hoje essa sensação faz parte do meu dia-a-dia, e isso me faz cada vez mais seguir em frente e procurar novos objetivos. O mundo me virou do avesso, e eu descobri que o lado avesso é meu lado certo.

Hoje tenho um emprego incerto, o que pode assustar muitas pessoas, mas na verdade é algo maravilhoso. Há algo melhor do que uma chance de mudar, recomeçar? Não ficarei triste ao perder um emprego, pois aí estará um estímulo pra seguir em frente, buscar novos horizontes, novas oportunidades. Que triste seria se eu permanecesse no mesmo emprego e no mesmo lugar pelo resto da vida, seja qual fosse. Nossa vida é guiada por mudanças, por desafios, por novos ares.

Então mãe, saiba que o filho que gagueja no telefone por não poder te dar uma explicação, se faz esse mesmo questionamento todos os dias de sua vida. Que ele enche o olho de lágrima quando desliga o telefone, questionando a justiça de se distanciar das pessoas que lhe ensinaram a caminhar, a comer, a falar. Saiba que não esquecemos em nenhum momento das pessoas que amamos, mas que em determinado tempo da vida, precisamos buscar algo novo, algo que nos inspire a viver, a querer mais. Desculpa mãe, mas eu não vou voltar pra casa.”

Maurício Rubin Parizotto
facebook.com/mauriciorparizotto

Uma resposta para “Um brasileiro na Austrália: Uma carta para sua mãe”

  1. Parabéns Maurício pelo lindo texto e contribuição. Já Já o Soul Vet chega até a Aussie Land hehehehe. Vamos nos encontrar.

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