O que aprendi no Instituto Evandro Chagas / Pará

Em 2005, quando decidi fazer minha pós graduação na Amazônia, eu já era nômade. Nesta época, eu já havia morado numa reserva ambiental, e já havia sido adotada por uma família de pescadores numa Ilha em Pernambuco, quando eu estava em meus profundos estudos com o silencioso e atípico comportamento das preguiças.

Quando peregrinei pela Amazônia, tive a oportunidade de conhecer o Instituto Evandro Chagas. Um dos maiores institutos de pesquisas em doenças tropicais do mundo, que foi criado em 1936. Sua belíssima arquitetura, está situada no Estado do Pará.

Uma das minhas maiores recordações neste local foi quando entrei no laboratório de virologia e doenças tropicais, e dois pesquisadores já de idade avançada, do qual, infelizmente, pela exaltação do momento, não me recordo seus nomes, puderam então me dar belíssimas explicações sobre as questões epidemiológicas de novas doenças que são descobertas na Amazônia.

Nesta visita que foi em 2005, escutei pela primeira vez falar sobre doenças/vírus como: Oroupouchi, Chikungunya, Zica, Mayaro, Ilhéus, Catu, Guaroa, Tacaiuma, Capararu, e outros nome engraçados e incomuns. Bom, alguns deste vírus ganharam força e temos as epidemias que assistimos hoje.

Ter contato com essas doenças nas quais não estamos habituados como profissionais da área de saúde, são experiências que nunca esquecemos. Uma delas que pude vivenciar alguns casos clínicos, foi a Oncocercose (apesar de ser um parasita nematoide), doença fortemente presente na África e mais ao norte da Amazônia fronteira com a Venezuela. Nesta área, eu estive com os índios Yanomamis e garimpeiros, que são atingidos de forma brutal por esta doença.

Minha visita ao Instituto Evandro Chagas, me deu uma bela amplitude de vista a riqueza e vastidão de conhecimentos relacionados as Doenças Tropicais, e uma das coisas que mais me chamaram a atenção foi uma estatística da quantidade de novos vírus que são catalogados a cada dia em florestas tropicais brasileiras.

Bom, na época, os pesquisadores me mostraram pelo menos mais de 100 tipos de vírus que são descobertos a cada ano nas florestas tropicais. E sempre pensei…uau…o que será de nós se destruirmos tudo? Nesta hora minha visão clínica, holística e médica me permitiram ver o quanto tudo está de uma certa forma equilibrada. E que não existe vírus bom ou mal.

Existe sim, uma certa organização no caos que permite uma resiliência e neutralidade. E que os desequilíbrios advêm principalmente dos nossos atos humanos e irracionais. Incluindo, a re-emergência e emergência de novas doenças. Somos responsáveis por tudo que nos acontece, e nos vitimizarmos não mudará as infinitas possibilidades epidemiológicas e o trágico prognóstico advindo da destruição desta aparente harmonia ecológica.

O surgimento de novas doenças é proporcional a destruição e o mal manejo dos ambientes naturais. E devemos lembrar que a vastidão de agentes, vetores e hospedeiros é proporcional a nossa imensa biodiversidade.

Noto que com uma consciência maior, podemos ainda que em tese, manter tudo num aparente equilíbrio: vírus, bactérias, fungos, vetores e hospedeiros, florestas, bichos, eu e você.

Existe um catálogo muito bom da Academia Brasileira de Ciências/Rio de Janeiro, publicado em 2010 com coordenação do Prof. Wanderley de Souza, que trás de forma organizada muito do que observei nesta minha visita.

Se você é médico veterinário ou estudante das terapias holísticos e mora ou quer ir para uma terra distante, ou quer entender como o homem interfere no meio e vice-versa, é veemente necessário que estude muito sobre doenças tropicais.

E um destes belos lugares para se aprimorar em doenças tropicais e análises clínicas se chama Instituto Evandro Chagas, no qual reverencio-me por seus mais de 80 anos de pesquisas e dedicação a vida. Mesmo que tudo fuja do controle (risos)…

Namastê,
Carla Soares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.