Lugares distantes….

Nesta minha caminhada, passei por muitos lugares carentes de saúde humana e animal. De norte a sul da América do Sul, existem muitas cidadelas e vilarejos que demandam nossa presença e serviço.

Sim, estar nestes lugares longínquos ou diferentes em seus estilos de vida, requer uma abnegação. Mas, para estar nestes lugares como médico, não necessariamente precisamos nos mudar e nos fixar nestes cantinhos como eu fiz algumas vezes. É possível apenas dar uma passada nestes lugares, e ter sim, muita qualidade de vida e belas experiências. E, para isso, não é necessário um enraizamento.

O ultimo lugar que permaneci por quase 4 e meio anos foi num vilarejo de pescador/turístico, com belíssimas praias no estado da Paraíba. Eu mesma duvidei que conseguiria viver ali. Mas, tive uma feliz surpresa ao me deparar com uma demanda reprimida de saúde humana e animal. Nestes quase 4 anos e meio, trabalhei em meu próprio consultório, vacinando e orientando milhares de pacientes e tutores. Muitos, devido a baixa cultura e educação, se quer haviam ouvido falar em “médicos de bichos” e cuidados básicos de prevenção, como vacinas, desverminações, alimentação, passeios e qualidade de vida.

A carência de saúde era tão imensa, que somente neste local consegui fechar 365 diagnósticos de Calazar (entre 2012 e 2016), podendo presenciar muitos óbitos de animais em estados últimos, como de seres humanos, que convivem com a doença sem o menor conhecimento de sua gravidade.

Permaneci neste local o tempo que foi possível. E, aprendi muitas lições. Alguns desses lindos aprendizados foram: podemos ganhar dinheiro e sermos felizes em lugarejos. Somos importantes em qualquer lugar que passarmos. A cura e o conhecimento independem do lugar. Facear uma cultura tão diferente e tão rustica, conferem uma imensa plasticidade e resiliência para falar de uma forma mais simples e adquirir uma paciência que nunca havia tido.

Me fez ter compaixão. Me fez ter criatividade para prescrever uma medicina acessível. Me fez ter humildade para reconhecer que a medicina pode muitas vezes extrapolar seus limites financeiros, que por fim, acabamos de esquecer a causa ultima, que é de fato a cura do nosso paciente. Aprendi inúmeras vezes a eleger protocolos terapêuticos baratos , porém não menos eficientes, à escolher medicamentos caros, renomados e da moda, para tornar a cura acessível.

Estar nestes locais me fez ser uma médica humana e altamente sensível e intuitiva, e com mais de 90% de acertos em meus diagnósticos. Ou seja, me tornou uma médica mais confiante em meu olhar clínico, pois nestes locais muitas vezes não é possível exames complementares básicos, como hemograma ou ultrassom ou raio X, quer seja pela distância de um grande centro, quer seja pela disponibilidade financeira da população local. Não importa o motivo, o importante é que quando estamos presentes com nosso amor e conhecimento, alguma mudança é possível. Sou grata pelas trocas e vivências. Sou grata por ser uma médica melhor na universidade da vida e ter feitos lindas e eternas amizades.

Nunca subestime sua importância como médico nestes lugarejos. Nunca tenha medo de fechar belos diagnósticos confiando apenas em seu conhecimento técnico e em sua intuição. Tenho observado nas cidades grandes, que muitos profissionais já tem todos os resultados que precisam para tratar o paciente, e ainda assim, ficam inseguros com os dados que dispõem em suas mãos. Fica-se muitas vezes discutindo o “sexo dos anjos”, quando o problema é por demasiadamente simples.

Um bom treino para aumentar essa habilidade de confiar em si, é sim, passar uma bela temporada de trabalho como médico veterinário numa praia distante….

Namastê
Carla Soares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.